Músicas indígenas no Brasil: sonoridades, escuta e modos de existir

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Jornal da Ciência – Artigo da nova edição da Ciência & Cultura discute o som como memória, agência e modo de existir nas musicalidades indígenas brasileiras

Em muitas sociedades indígenas que vivem no Brasil, o som não se limita a um fenômeno físico nem a música a um objeto estético. Cantar, tocar ou nomear são maneiras de agir no mundo, produzir conhecimento e estabelecer relações entre humanos, territórios e outros seres. Isso é o que discute artigo da nova edição da Ciência & Cultura, que tem como tema “Música, Som e Ciência”.

Segundo Magda Dourado Pucci, doutora em Performance and Creative Arts pela Leiden University (Holanda), o contexto brasileiro reforça essa perspectiva, dada a amplitude da diversidade linguística registrada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Cada uma das centenas de línguas faladas no país organiza de forma própria a voz, a memória e os modos de classificar o mundo. Assim, a música não se apresenta como uma categoria universal, mas como um conjunto variado de práticas sonoras que estruturam maneiras de existir. “No âmbito acadêmico, as musicalidades indígenas no Brasil vêm sendo cada vez mais compreendidas não apenas como expressões artísticas, mas como práticas que articulam conhecimento, territórios e seres visíveis e invisíveis, como memória, cosmologia, corpo e vida coletiva”, afirma a pesquisadora.

Essa concepção também atravessa reflexões elaboradas por lideranças indígenas brasileiras. Em “A queda do céu”, Davi Kopenawa descreve a floresta como condição de existência compartilhada, na qual humanos, espíritos, ventos e cantos compõem um mundo comum. Entre os povos Timbira, como observou a etnomusicóloga Kilza Setti, o canto — entendido como saber que emerge da garganta — estrutura processos coletivos de transmissão, ritualização e articulação política. Ao reunir essas etnografias, pesquisadores mostram que musicalidades indígenas não podem ser reduzidas a repertórios artísticos: elas funcionam como tecnologias sensíveis de relação, memória e continuidade territorial.

O reconhecimento dessa complexidade tem implicações diretas para os estudos sobre música, som e ciência. Em um cenário marcado por crises ambientais e homogeneização cultural, as musicalidades indígenas oferecem menos um modelo a ser apropriado e mais um convite epistemológico: aprender a escutar. “Cantar, chorar, nomear ou entoar são modos de criar mundos, nos quais corpo, som e escuta se articulam de forma indissociável”, pontua Magda Pucci.

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Ciência & Cultura

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