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Vai faltar água

domingo 26 de janeiro de 2003, por André Deak, Giovanna Modé,

Há milhares de anos, dez sóis aqueciam terrivelmente a Terra. Foi chamado um grande arqueiro, então, que atirou suas flechas certeiras e derrubou nove dos dez enormes planetas de fogo, impedindo assim que toda a nossa água se secasse.

Essa lenda chinesa, assim como tantas outras pelo mundo, tentava ensinar a importância da água ao povo, para que soubesse como usá-la. Pela história passaram dezenas de deuses da água, adorados por muitas religiões – mas hoje, principalmente nas grandes metrópoles, essa importância foi deixada de lado. “Apenas culturas ‘modernas’ avançadas, guiadas pela ganância e convencidas de sua supremacia sobre a Natureza, não reverenciam a água”, diz um trecho do livro “Ouro Azul”, de Tony Clarke e Maude Barlow, que estiveram em Porto Alegre para a terceira edição do Fórum Social Mundial. “A menos que mudemos nosso comportamento drasticamente, entre metade e dois terços da humanidade estará vivendo com severa escassez de água doce nos próximos 25 anos”.

Maude Barlow é diretora nacional do Conselho dos Canadenses e do Fórum Internacional sobre Globalização, além de ser co-fundadora do Blue Planet Project, um movimento global de cidadãos para proteger a água. Tony Clarke é diretor do Instituto Polaris do Canadá e dirige o comitê sobre corporações para o Fórum Internacional sobre Globalização. Juntos, escreveram três livros sobre o Acordo Multilateral de Investimento (AMI) e foram os líderes canadenses na luta bem sucedida para derrubar esse acordo. “Muitos de nós usamos a água como se ela nunca fosse acabar. Mas a suposição é tragicamente falsa. A quantidade de água doce disponível é menos que 0,5% de toda a água na Terra”. Para explicar esse e outros trechos do livro, Barlow e Clarke concederam a entrevista abaixo:

EmCrise: Como está a situação geral no mundo, em relação à água?

Maude Barlow: Está ficando cada vez pior. Nós documentamos como o mundo está consumindo água potável e como ele está fazendo isso. A primeira coisa importante é que não importa onde estivermos, não importa se no Canadá ou no Brasil existe abundância de água. Todos nós somos da espécie humana.

Qual é o papel das grandes corporações na escassez de água?

Barlow: Tudo está à venda. Principalmente para as grandes corporações. A água, de acordo com uma definição do Banco Mundial e das Nações Unidas, não é um direito humano, mas uma necessidade humana. Isso não é uma questão de semântica; a diferença de interpretação é crucial. Um direito humano não pode ser vendido, mas, pela definição deles, “uma necessidade”, pode.
Tony Clarke: A última fronteira do capitalismo é essa, a água. As pessoas estão percebendo isso e estão ficando bem nervosas.

Sendo tão óbvio que a água é um direito, por que tentar vendê-la, mesmo sabendo que isso causará a morte de muitos?

Clarke: As classes mais ricas simplesmente ignoram o resto da humanidade. Existe hoje uma tensão sendo armada, que é, de um lado, o movimento dos pescadores, movimentos em defesa da água, que lutam para que a água seja reconhecida como um direito universal. De outro, as corporações, querendo comercializá-la. Isso não vai ser decidido com livros bonitos e trabalho simples. Vai haver luta. As pessoas estão muito, mas muito bravas porque sua água está sendo roubada. As guerras pela água (water wars) serão as grandes lutas deste século. Em março do ano 2000, por exemplo, em Cochabamba, na Bolívia. Esta tornou-se uma luta simbólica, um marco ao redor do mundo.

SAIBA MAIS:
O site da BBC montou um mapa que mostra as principais regiões do planeta onde a água já é motivo de preocupação.


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