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Marcha Mundial das Mulheres encerra 3ª Ação Internacional

segunda-feira 18 de outubro de 2010, por Terezinha Vicente ,

Iniciada em 8 de março, a 3ª Ação Internacional da Marcha Mundial das Mulheres contou com ações nacionais em 52 países, em todas as regiões do mundo. As ações envolveram diretamente cerca de 40 mil mulheres, em torno de quatro campos de atuação: autonomia econômica das mulheres, bens comuns e serviços públicos, violência contra as mulheres e paz e desmilitarização. Nos últimos dias, mais de mil mulheres, de 42 países, reuniram-se em Bukavu, na República Democrática do Congo, para o encerramento mundial desta Ação. A troca de experiências com as mulheres da região dos Grandes Lagos Africanos, apresentações de dança e teatro, plantação de um bosque no centro de Bukavu fizeram parte da programação, que foi encerrada com uma grande marcha pela paz no domingo, 17 de outubro.

No Brasil, a marcha de dez dias realizada por 3 mil mulheres, desponta entre as diversas manifestações, atos culturais, seminários, vigilias, oficinas organizadas em todos os continentes nesta 3ª Ação Internacional da MMM. Além das atividades nacionais e locais, foram realizados no período três grandes ações regionais com debates e manifestações públicas. Na Ásia, mulheres de 10 países reuniram-se em Manila, nas Filipinas, e se manifestaram contra a intervenção, o controle e a presença militar dos Estados Unidos no sudeste do continente. Na Europa, mulheres de 23 países se reuniram em Istambul, na Turquia, e proclamaram suas exigências, sob o lema: "Mulheres, Paz, Liberdade". Nas Américas, a MMM se uniu a diversos movimentos populares e feministas e realizou, entre 16 e 23 de agosto, o Encontro de mulheres e povos das Américas contra a militarização, que reuniu 2.500 participantes na Colômbia.

O fortalecimento da auto-organização das mulheres, foi a tônica do fechamento da 3ª Ação Internacional da MMM. No Brasil, atividades foram realizadas em diversos estados, como Amazonas, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. Em nossa cidade, foi realizado um evento político cultural, neste sábado, dia 16, no CIM – Centro Informação Mulher, na Praça Roosevelt. Além de apresentação da ação da Marcha no mundo, houve discussão sobre o tema da paz e desmilitarização, exibição do documentário sobre a 3ª Ação no Brasil e confraternização.

Militarização e criminalização da pobreza

“Esta 3ª Ação marca definitivamente nosso caráter de movimento feminista internacional”, disse Camila Furchi, da Fuzarca Feminista e da SOF (Sempre Viva Organização Feminista), “pois os quatro campos que trabalhamos foram construídos desde as regiões, a partir de denúncias, reivindicações e posicionamento das mulheres que, nacionalmente ou regionalmente trabalharam ao longo do ano nesta plataforma de lutas, como fizemos no Brasil”. Camila explicou o motivo de ter sido escolhido o Congo para o encerramento da ação internacional. As mulheres do Congo, assim como todas as que vivem em regiões com conflitos, têm seus corpos utilizados como armas de guerra, pela violência sexual. “Expressamos e fortalecemos nossa solidariedade feminista com as mulheres dessas regiões, que resistem e estão comprometidas com processos de construção de uma paz definitiva, que é mais que viver sem guerra”.

A militarização cresce no mundo, inclusive na América Latina, “como mecanismo de apoio ao patriarcado, em suas relações com o capitalismo e o racismo”, disse a representante da Marcha. “O Exército é a expressão mais concreta dos valores do patriarcado e do capitalismo, como relações fortemente hierarquizadas, a violência, a guerra”. Camila mostrou a relação da militarização com o controle de recursos naturais dos países, com os sistemas de dominação e a violência contra os pobres. Essa política articula-se no Brasil com a criminalização da pobreza, a institucionalização da violência, do racismo, da homofobia e os “assassinatos” de jovens na periferia, negros em maioria.

Kika Bessen, representando as mulheres negras, recordou a grande exploração capitalista na África, “o êxodo promovido pela exploração das riquezas naturais do continente africano, a Diáspora”. Lembrou além do Congo, de Angola, do Haiti e do racismo no Brasil, e saudou a grande participação de negras na Marcha. Amelinha Telles, da União de Mulheres, das Promotoras Legais Populares, considerou a ação no Brasil como “uma audácia, para romper com barreiras e com a falta de crédito na capacidade das mulheres”. Para ela, na caminhada foi feita uma síntese das lutas das mulheres e dos povos em tantos países, contra as guerras, o patriarcado, o capitalismo e o imperialismo. “Foi uma ação que empoderou a nós todas”. Marcia Balades e Cinthia Abreu, representando as lésbicas, lembraram o processo de “desconstrução do pré-conceito” vivido na marcha por muitas mulheres que nunca haviam visto duas mulheres se beijando.

Depoimentos emocionados de outras “marchantes” lembraram aspectos da grande diversidade, vivida e apreendida, com a 3ª Ação Internacional. Nenhuma mulher que participou dos onze dias de caminhada em março, marchando em média 10km por dia, passando por 10 cidades continuou a mesma depois dessa ousadia – este sem dúvida o maior consenso entre as participantes. A apresentação do documentário, um resumo dia a dia dos onze dias da ação, caminhada, formação e atividades culturais, renovou toda a força e solidariedade da convivência feminista. As músicas da marcha foram cantadas, histórias foram contadas, as imagens trouxeram risos e lágrimas aos olhos.

“Amigas vamos marchar

Chega de fome, pobreza e violência

Amigas vamos marchar

Cantando pro mundo a nossa irreverência...”


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