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Zuzu Angel

quarta-feira 16 de agosto de 2006, por Lúcia Rodrigues,

Zuzu Angel, de Sérgio Rezende, tem o mérito de lançar luz sobre um período ainda desconhecido para a imensa maioria da população brasileira. Se não mergulha de maneira intensa no universo macabro do terror que foi a repressão da ditadura militar, cumpre o papel de não deixar cair no esquecimento a atmosfera sombria que envolveu o país de 1964 a 1985.

Mãe do militante político do MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro) Stuart Edgard Angel Jones, a estilista mineira Zuzu Angel, não mediu esforços para elucidar o assassinato do filho, pelos órgãos de repressão, em 1971. A morte de Tuti, como ela o chamava, não poderia ficar impune.

Stuart Angel é um dos inúmeros militantes da esquerda brasileira, mortos nos porões da ditadura militar, a engrossar a lista de desaparecidos políticos. Zuzu não teve direito nem ao corpo do filho. Isso, no entanto, não foi motivo para esmorecer sua coragem. Pelo contrário, deu-lhe mais força para lutar pela verdade.

Os responsáveis pela morte de Tuti deveriam ser punidos. A estilista fez desse objetivo, sua saga pessoal. Moveu céus e terras. Não se desviou em nenhum momento do caminho traçado. A determinação rendeu-lhe o ódio dos militares que sentenciaram para ela, o mesmo final trágico que haviam sentenciado cinco anos antes para seu filho.

Zuzu morreria, em 14 de abril de 1976, em um acidente de carro provocado pelos órgãos de repressão. Seu automóvel seria arremessado na saída do túnel Dois Irmãos, em São Conrado, no Rio de Janeiro. Hoje, o mesmo túnel recebe seu nome.

Denunciando a tortura

Reconhecida internacionalmente pela moda arrojada que produzia, Zuzu dará uma guinada de 180 graus em sua vida após a morte do filho. No auge da carreira, a estilista não titubeou em ir às últimas conseqüências para descobrir quem e como haviam assassinado o seu Tuti.
De senhora bem comportada, habituada a compor os guarda-roupas das madames da burguesia nacional e internacional, Zuzu choca as dondocas ao entrar na passarela vestida de preto da cabeça aos pés, com um crucifixo no pescoço e a foto do filho nas mãos.

Mas o ímpeto por descobrir onde estava o corpo de Stuart não parou por aí. Durante um vôo de Nova Iorque para o Rio, tomou o interfone das mãos de uma comissária de bordo quando esta se preparava para dar as instruções dos procedimentos de pouso no aeroporto internacional da cidade maravilhosa e anunciou aos passageiros e tripulantes que no Brasil existia tortura.

Zuzu não considerava suas atitudes como atos de coragem. Segundo a estilista, coragem tivera seu filho, ela tinha legitimidade.

Grito sufocado

Depois de ter o corpo dilacerado pelas brutais sessões de torturas que se estenderam dos choques elétricos no pau de arara a toda sorte de sevícias desferidas pelos torturadores, Stuart ainda foi amarrado pelos militares a um jipe e teve sua boca presa ao escapamento do veículo. Enquanto seu corpo era arrastado pelo chão, ele recebia descargas de monóxido de carbono diretamente na garganta, sem poder se esquivar.

Mas a sanha dos militares iria além. Stuart teria o corpo lançado ao mar. A ira da repressão contra Stuart Angel era avassaladora. Apesar de barbaramente torturado, ele não delatou Carlos Lamarca, mesmo tendo informações que se abertas poderiam comprometer a segurança do ex-capitão. Os militares nutriam ódio especial por Lamarca, que optou por militar em outro exército.

A participação de Stuart no seqüestro do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick aumentava a fúria dos militares contra ele. O seqüestro de Elbrick teve ampla repercussão e contribuiu para que se denunciasse publicamente pela primeira vez, o que governo vinha fazendo nos subterrâneos do regime.

Os militares foram obrigados a atender as exigências dos ativistas. Um manifesto redigido pelo atual comentarista político, da Rede Bandeirantes, Franklin Martins, que à época militava com Stuart, no MR-8, foi lido inclusive no Jornal Nacional.

O documento se incumbia de relatar para a população que os militares torturavam e assassinavam opositores nos porões da ditadura, além é claro de apresentar a relação com o nome dos presos políticos que deveriam ser soltos em troca do embaixador. O ex-ministro da Casa Civil José Dirceu foi um dos quinze ativistas trocados por Elbrick.

Embalado pela belíssima canção de Chico Buarque, Angélica, Zuzu Angel merece ser visto com olhos de indignação e cobrança, para que os crimes cometidos pela ditadura nunca sejam esquecidos. Porque as marcas da tortura não passarão jamais. Vale a pena conferir.

Foto: Stuart Edgard Angel Jones


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