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Xeque ao Império

quarta-feira 6 de fevereiro de 2002, por Eduardo Galeano,

Diz o refrão espanhol que "a cabra arrasa o monte". E o presidente dos Estados Unidos confirma o dito e os piores prognósticos proclamando que "quem não está conosco, está contra nós".

Decidiu separar a humanidade em dois, "bons e maus". Pressupõe-se que eles são os "bons". E seu público, parlamentares republicanos, democratas, generais, funcionários, aplaudem de pé. A frase "vamos destruí-los" provoca um movimento ascendente na popularidade de Bush, ainda que não se possa dizer com certeza quem ou o que "vamos destruir". Pode a dor de um povo por suas vítimas, pelo orgulho ferido, bloquear a tal ponto sua capacidade racional? Parece que sim: "Todos junto ao xerife".

Porém, mais penoso resulta ver como a maioria dos governos europeus aceitam mansamente implicar-se em aventuras que não respondem aos verdadeiros interesses de seus povos, e que podem ter dramáticas conseqüências para a humanidade.

Dificilmente pode haver uma imagem mais grotesca do que a oferecida hoje em Bruxelas por indiscretas câmaras de um telejornal, quando o primeiro ministro grego disse ao presidente espanhol que seu país ocupará "a presidência européia durante a grande guerra", ocorrência que ambos festejam com um riso de hienas que nos congela o sangue, porque subitamente nos põem frente a uma patética realidade. Ante ela, podemos ser indiferentes?

Ou talvez a de um presidente latino-americano - De la Rúa - que destitui de modo fulminante a um de seus colaboradores, por afirmar publicamente que "não temos que simplesmente nos somarmos à aventura do cowboy", enquanto avaliza seu chefe de gabinete, o ministro da economia, artífice de uma política de "liquidação" das riquezas do país, de sua neocolonização, da drenagem de recursos para pagar uma dívida externa injustamente contraída, do empobrecimento e falta de futuro de grande parte de seus cidadãos.

Nunca, como nestes terríveis "tempos de cólera", tem sido tão necessária a presença ativa dos cidadãos, daquilo que alguns chamam "a sociedade civil" e outros denominam como "movimentos sociais". Dos que não ocupam cargos relevantes, dos que se levantam todas as manhãs para trabalhar com seriedade, para criar, produzir, ser úteis ou para buscar um trabalho que o sistema lhes nega, dos que lutam para dar um futuro a seus filhos, dos que sonham com um futuro melhor, com justiça, com paz, com solidariedade.

Comove-nos a morte de milhares de inocentes nos atentados do 11 de setembro. Tanto como a de milhões de vítimas de um sistema injusto que empobrece, exclui e mata por fome, por enfermidades curáveis, por repressão, por bombardeios, por assassinatos...

A situação internacional é muito mais complexa do que pretende a primária definição de Bush, por mais que muitos de seus compatriotas decidam elevá-lo ao pedestal de estadista.

E, desde já, qualquer cidadadão sensato de Washington, Aranjuez, Sonora, Rawalpindi, Catamarca, Valparaíso, Cidade do Cabo, Cochabamba, Paysandú, Guatemala, Lahore, São Paulo ou a mais remota aldeia do planeta, tem direito de não se sentir parte de nenhum dos pedaços nos quais Bush pretende "partir" o mundo.

Se a empreende... será "sua guerra". NÃO a nossa. Quiçás como um quebra-cabeças, sua atitude "encaixe" perfeitamente com o que a outra peça pretende.

Os demais, cremos que "outro mundo é possível" e que temos que construí-lo entre todos. Sem bombas nem mísseis nem desembarques. Com justiça, com eqüidade, com respeito, com solidariedade.
Redação de SERPAL - Serviço de Imprensa Alternativa
Tradução: L.C.Correa Soares