“O capitalismo não vai fazer uma manobra biocêntrica, ele é alimentado pela fúria do consumo”

Ailton Krenak

Gabriel Alves – Jornal da CiênciaPrimeiro indígena eleito imortal da Academia Brasileira de Letras, Ailton Krenak alerta sobre ausência de compromissos efetivos na agenda climática global e desconexão da humanidade com o planeta. Entrevista faz parte da nova edição do Jornal da Ciência Especial, disponível para download gratuito

Eleito para a Academia Brasileira de Letras em outubro de 2023 e empossado em abril de 2024, Ailton Krenak, 72, tornou-se o primeiro indígena a ocupar uma cadeira na instituição em seus 128 anos de história. O escritor, que tem obras traduzidas para 19 idiomas e publicadas em dezenas de países, consolidou-se como uma das vozes mais expressivas do pensamento brasileiro contemporâneo sobre a crise climática e os limites do modelo de desenvolvimento capitalista.

Autor de “Ideias para adiar o fim do mundo” e “A vida não é útil”, Krenak há décadas alerta sobre o caráter predatório da economia que trata a natureza como recurso infinito. Desde seu icônico discurso na Assembleia Constituinte de 1987, quando pintou o rosto com tinta de jenipapo em defesa dos direitos indígenas, até suas intervenções recentes, o líder krenak mantém uma crítica radical ao que chama de “fúria do consumo” que alimenta o capitalismo e impede qualquer manobra genuinamente voltada à vida.

Krenak decidiu não participar presencialmente da COP30, em Belém. Mas sua presença se faz sentir de outra forma: como curador da exposição “Você já escutou a Terra?”, em cartaz no Museu do Estado do Pará até fevereiro de 2026, ele propõe uma experiência imersiva de escuta biocêntrica, um convite para que o público reflita sobre a relação entre humanos e o planeta reconhecendo todas as formas de vida como igualmente valiosas.

Nesta entrevista ao Jornal da Ciência, Krenak explica por que enxerga as Conferências do Clima como megaeventos esvaziados de compromissos concretos, critica o discurso corporativo de sustentabilidade, e defende que é preciso dissociar a discussão climática da ideia de desenvolvimento e progresso.

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Jornal da Ciência – Sobre a realização da COP30 em Belém, é possível ter alguma expectativa em relação ao que vai restar de legado para o Brasil e para o mundo?

Ailton Krenak – Grandes eventos provocam nas pessoas essa incômoda questão sobre qual legado vão deixar. O primeiro é a própria infraestrutura, porque veem muito gasto, muita grana rolando, muita agitação. E ficam pensando: “depois, quando isso passar, vai ficar só um monte de coisa para a gente limpar”. Jogos Olímpicos no Rio, Pan-Americano, construção de estádios… a gente só confirma que estamos mesmo nos tornando o espetáculo, globalmente.

O mais importante de cada evento parece que é essa parte espetacular, não o conteúdo que se discute. No caso da COP30, me incomodava ela se tornar um balcão de negócios. Como a gente estava metido numa crise de relação com os Estados Unidos, e pela própria situação de os Estados Unidos se retirarem do Acordo de Paris e descumprirem outros protocolos, a agenda formal da Conferência do Clima foi se esvaziando. E o que foi ficando foi só a ideia de um megaevento.

A Conferência do Clima deveria ter foco nos compromissos assumidos em todas as conferências até agora, num balanço do que já foi feito, e não uma sucessão de encontros espetaculares mundo afora. Tem gente que gosta muito de fazer turismo, lota um avião aqui e vai para Dubai. Eu nunca fui a Dubai. Eu me lembro do poema do Manuel Bandeira: “Vou-me embora pra Pasárgada”. Tem gente que, diante do clima incontornável, prefere ir para Pasárgada.

 JC – E como o senhor vê essa movimentação toda em torno do evento?

AK – A mobilização interna no nosso país é grande. Eu até vi o príncipe William (da Inglaterra) plantando mudas de árvores numa das comunidades que ele foi visitar, lá para o lado de Belém. Então, virou um palco para celebridades. Mas essa movimentação não resulta em compromissos efetivos para a gente mudar, por exemplo, a infraestrutura das nossas cidades, que têm uma participação muito grande na questão do aquecimento global e nas crises internas com relação ao clima.

Por exemplo, as inundações que a gente viveu em algumas regiões — Porto Alegre é a mais emblemática —, não foi feito nada até agora para, no caso de uma nova inundação, aquelas pessoas não morrerem atoladas na lama. Isso é só um exemplo bem gritante. Os outros são as crises sociais que nós vivemos internamente em grandes metrópoles e que não são percebidas como crise do clima.

JC – Como essas crises urbanas se conectam com a questão climática?

AK – Quando você tem que remover comunidades inteiras de mangue ou de periferias urbanas, você faz essa remoção sem levar em conta que nós não temos mais a possibilidade de sair levando gente de um canto para outro sem considerar eventos climáticos extremos. A violência com que são tratadas as comunidades que habitam territórios abandonados pelas políticas públicas tem a ver com crise do clima, com falta de água, com a elevação das temperaturas, porque nossos organismos estão imersos nesse ecossistema.

A gente não pode imaginar o clima separado da nossa pele, da nossa experiência, daquilo que o jornal no rádio chama de sensação térmica. Você está dentro do táxi deslocando para um lado e para o outro, o cara vira e fala que a sensação térmica hoje é de 60°C. Está todo mundo derretendo feito lesma no asfalto. Mas as pessoas não associam esse sofrimento com a crise do clima.

JC – O que se pode dizer sobre o papel do modelo de desenvolvimento que temos e sua parcela de culpa nessa crise? Como a gente pode tentar, de alguma maneira, reverter essa situação?

AK – A ministra Marina Silva já há algum tempo reclama a formulação de um plano para a Amazônia, para a economia daquela região, que ela chama de bioeconomia. E, internamente ao governo, parece que a voz da ministra não consegue mobilizar muitas intenções ou muitos propósitos, tanto do ponto de vista da economia quanto do ponto de vista da agroindústria, desse pacote que faz o PIB brasileiro. Não parece que há interesse em promover a chamada transição energética necessária para que a gente diminua a produção de efeitos negativos para o clima em geral e a emissão de CO2.

Enquanto isso, a gente tem os outros ministros querendo abrir estrada, tirar ouro, minerar e furar para extrair petróleo. O meio ambiente leva de 7 a 1 nessa. Então, qual é mesmo a mensagem que o governo Lula, nesse mandato, está nos passando quando eles afirmam que vai ter prospecção de petróleo na Margem Equatorial? Essa coisa de Margem Equatorial, já falei que é um eufemismo para eles não dizerem que vão furar na Amazônia.

As comunidades ribeirinhas e indígenas temem por um novo Belo Monte. E Belo Monte foi denunciado intensamente antes de acontecer, mas aconteceu na marra. E agora nós estamos com os prejuízos para serem administrados, com a vida transtornada daquelas comunidades e um projeto de produção de energia a partir daquela grande barragem que se mostrou ineficiente.

A água do Xingu não é suficiente para mover todas as turbinas de Belo Monte. E algumas delas estão já ficando desativadas. Os debates da SBPC na década de 90 e depois no começo desse século alertavam exatamente para a fragilidade daquele ecossistema e para a necessidade de a gente repensar a construção de grandes barragens na Amazônia. A gente não parou.

Se você for olhar na mesa do Ministério de Minas e Energia, está cheio de projetos lá que vão incidir sobre os rios. E vão continuar com esse discurso de que a energia produzida a partir das hidrelétricas é limpa e que a transição energética pode esperar mais um pouco, quem sabe até 2040, 2050. Até lá, nós vamos torrar. Os financistas, os trambiqueiros, o pessoal que explora o mercado financeiro, eles fogem, eles vão para algum lugar com temperatura agradável.

JC – Mas aí todos perdem — e eles não teriam nem a quem explorar… 

AK – Mas eles são negacionistas. O negacionismo está permeando as relações com a economia, com a ideia de mercado, com a ideia de sucesso de um país. Um país aparece como sucesso quando ele explora os seus chamados recursos naturais de maneira competente, como dizem, e que produzem efeitos na economia. Nem sempre isso vai junto com a qualidade de vida das pessoas, nem dos trabalhadores, nem dos desempregados em geral.

E eu tento dissociar essa discussão com relação ao clima da ideia de desenvolvimento ou progresso. Se você insistir na ideia de desenvolvimento e progresso você está botando ficha na predação e na exaustão de recursos não renováveis. Um rio não é um recurso renovável. É mentira dizer que um rio é um recurso renovável. Então, hidrelétricas não podem ser vistas como um recurso limpo ou renovável. Isso aí é uma mistificação.

Eu costumo dizer, inclusive, que o discurso da sustentabilidade é um mito corporativo. As corporações adoram dizer que tudo é sustentável. Um carro é sustentável. Eles estão vendendo esse carro elétrico aqui no Brasil e dizem que ele é sustentável. Eu não sei de onde é que eles tiraram o ferro para fazer o chassi, a lataria e todo o resto. Só porque eles botaram uma tomada elétrica nele, ele virou sustentável. Fazem propaganda descarada sobre isso, e a gente deveria ter um controle desse tipo de publicidade mentirosa. Dizer que um carro é sustentável é achar que a gente é realmente incapaz de distinguir uma coisa da outra.

JC – O sr. comentou a questão da bioeconomia, e vemos que existe todo um esforço para fazer com que ela seja harmônica com os saberes tradicionais indígenas. Qual é o caminho que a gente tem que percorrer para uma conciliação desses modos de vida? 

AK – Dentro de um amplo sistema da economia global, que é o capitalismo, essa ideia de equilíbrio, de moderação na exploração das fontes de energia e de subsistência no mundo todo parece que não é prioridade. O capitalismo não vai fazer uma manobra biocêntrica, voltada à vida, porque ele é alimentado por essa fúria do consumo. As sociedades são estimuladas cada vez mais a querer tudo, a consumir tudo.

Nós mesmos somos cooptados o tempo inteiro pela ideia de trocar itens, trocar coisas, trocar o chuveiro, trocar a bateria, trocar a geladeira, trocar o sapato, trocar tudo, trocar o carro. Hoje tem família que tem três, quatro carros. O principal direito dos humanos é o direito ao consumo. Nós viramos uma sociedade perdulária que come tudo e pisa na terra como se fôssemos os reis do mundo, e é por isso que nós estamos metendo o pé no Antropoceno, um efeito indelével na Terra.

JC – Como avalia o momento dos povos indígenas nessas discussões? Eles estão bem-posicionados?

AK – Eu acredito que se os outros segmentos da sociedade brasileira tivessem a mesma preocupação [dos indígenas] com a questão do clima, já teriam avançado para o entendimento de que todos nós habitamos biomas no território brasileiro, que são a Mata Atlântica, o Cerrado, a Caatinga, além da Floresta Amazônica, obviamente, e outros biomas, e iam começar a pensar naquele córrego que corre lá na sua vila, na sua cidade, como alguma coisa de interesse comum que deveria ser protegida. Os povos indígenas têm essa consciência, mas são uma minoria tão ínfima que os córregos acabam se transformando em esgoto; os igarapés, em depósitos de mercúrio e outros rejeitos do garimpo e da agricultura.

A maioria das pessoas não se toca que o Cerrado está sendo devastado para implantar a monocultura da soja e outros grãos, ou que esse imenso contingente de pessoas, que estão perdendo seus lugares de origem, se alegra com o anúncio de safras cada vez maiores, por estarem ampliando o uso da terra em lugares onde ainda não havia exploração.

Se o Brasil continua batendo todos os rankings de maior produtor de grãos, não é porque a gente faz isso com mais expertise, é porque outros povos não têm o tanto de terra nova para “comer” como nós temos. O agro é pop, tão pop que monta uma bancada no Congresso e não deixa acontecer nada que eles não queiram. Eles já aviltaram o Código Florestal para liberar geral. A porteira está aberta e o agronegócio festeja.

A hora que você tira a floresta, é como se restasse só a nata da terra. Aquela nata da terra é comida pelo agronegócio, e depois eles socam veneno no corpo da terra para extrair mais e nós vamos transformando essa camada abundante de solo em um carpete cheio de agrotóxico. O Brasil continua sendo o país que mais importa veneno para a agricultura e o que mais exporta produtos de áreas novas, desmatadas.

JC – Essa desconexão que a gente tem com o ambiente, com os rios, com a terra, tem até um componente espiritual. Estamos também ficando doentes por essa desconexão com o imaterial?

AK – Os meus textos, as minhas falas públicas sempre reclamam o chamado direito da natureza. Isso não é uma perspectiva só material, ela é uma perspectiva também, obviamente, que toca a sensibilidade, a subjetividade.

Belém tem uma exposição, desde outubro, chamada “Você já escutou a Terra?”. A curadoria é minha. Tem um discurso sobre a necessidade de a gente fazer uma manobra biocêntrica, de a gente se voltar à vida, à vida da Terra, que eu há muito tempo anuncio que é um organismo vivo. Gaia é um organismo vivo!

Se a gente quiser continuar tratando a Terra como uma plataforma física, nós vamos, antes de acabar com o planeta, acabar com a espécie dos humanos. Se a gente não fizer uma manobra saindo do Antropoceno e buscar uma perspectiva biocêntrica de habitar o planeta, nós vamos ser expulsos daqui como um organismo estranho, como um vírus.

Gabriel Alves – Jornal da Ciência

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