por João Payayá em parceria com Jornalistas Livres
A aproximação das eleições estaduais reacende um debate complexo e histórico entre os indígenas do sul e extremo sul da Bahia: como se posicionar politicamente diante de um sistema que, em muitos momentos, se mostrou contrário aos nossos direitos territoriais e culturais?
Nos territórios de Porto Seguro e proximidade, parte das lideranças tem sinalizado apoio ao pré-candidato a deputado estadual Jânio Natal Júnior, figura vinculada a setores da direita política brasileira. Esse movimento evidencia uma tensão profunda entre estratégias políticas pragmáticas e a memória recente de conflitos entre governos alinhados à direita e os povos indígenas.
Durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, consolidou-se uma política abertamente contrária aos direitos territoriais indígenas. Um dos episódios mais emblemáticos foi a paralisação de processos de demarcação, incluindo os território indígenas Barra Velha, Comexatibá e Ponta Grande, em Porto Seguro, cuja regularização segue sendo uma demanda histórica do povo Pataxó.
Além disso, figuras políticas associadas a esse campo ideológico, como Arthur Maia, protagonizaram embates diretos com pautas indígenas no Congresso Nacional, especialmente em temas relacionados à demarcação de terras e à flexibilização de direitos territoriais, inclusive protocolando projeto de lei que anula a portaria declaratória do TI Pataxó Comexatibá, declarada na COP-30. Esses conflitos reforçaram um cenário de insegurança jurídica e política para diversas comunidades.
O apoio declarado de Jânio Natal Júnior a políticos como Flávio Bolsonaro, ACM Neto e o próprio Arthur Maia coloca em evidência uma contradição central: como conciliar alianças com grupos políticos historicamente associados à restrição de direitos indígenas com a luta pela autodeterminação e pelo território?

Publicação no perfil de Jânio Natal Júnior no Instagram, ao lado de Flávio Bolsonaro. Na postagem, Jânio escreveu: “Com nosso futuro presidente, Flávio Bolsonaro”. Reprodução/Instagram.
Para alguns, a resposta está em um falso pragmatismo político. A lógica é de que a aproximação com diferentes campos ideológicos pode garantir acesso a recursos pontuais para as comunidades, como aterros de ruas e manutenção de políticas públicas municipais como escola e posto de saúde, obrigações institucionais que são tratadas como “ajuda”. Trata-se de uma estratégia que prioriza a negociação para a garantia de estruturas básicas, bem como a presença de poucas lideranças indígena dentro das estruturas de poder.
Por outro lado, assim como eu, há um conjunto significativo de lideranças e organizações que enxergam essa aproximação como um risco político e simbólico. Para nós, alianças com setores que já se posicionaram contra direitos indígenas podem fragilizar a luta coletiva e gerar divisões internas.
Esse cenário revela um dilema que não é novo, mas que ganha novos contornos: a disputa entre autonomia política e inserção institucional. De um lado, a necessidade de ocupar espaços de poder e garantir essas estruturas mínimas. De outro, o risco de cooptar ou diluir pautas históricas em alianças contraditórias.
A escolha política, nesse contexto, deixa de ser apenas eleitoral e passa a ser também estratégica e ética. Ela envolve uma questão fundamental: É possível avançar na garantia de direitos a partir de alianças com setores historicamente adversos?!
No fundo, o que está em jogo não é apenas o acesso a recursos ou espaços institucionais, mas a coerência entre discurso e prática, entre memória e decisão. A história recente mostra que alianças políticas não são neutras, elas carregam projetos, interesses e consequências.
Ao optar por caminhar ao lado de determinados grupos, assume-se também o risco de partilhar de suas práticas e resultados. E é justamente aí que o provérbio popular ecoa como alerta político e ético: quem anda com porcos, farelos comem.
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