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A Cúpula dos Sistemas Alimentares pode ser um estímulo para superar a nossa fragmentação?

terça-feira 25 de maio de 2021, por Sergio Storch,

Você lembrará das aulas de Física no nível médio as imagens do equilíbrio entre forças centrífugas e centrípetas. Está no nosso cotidiano: ao levantarmos da cama, algo nos faz parar em pé no chão, né? Sem a força da gravidade (centrípeta), pisar no chão nos levaria a voar (centrífuga). Simples assim.

O que é que há? O genocida e seus cúmplices perfumados do neoliberalismo permanecem aí porque, do nosso lado, as forças centrífugas nos levam à fragmentação, que vemos nessa explosão desordenada de iniciativas, grupos, grupelhos, lives, que nos levam a esse movimento browniano em que está tanta gente tão superocupada falando no youtube ou ouvindo outras falarem, num processo catatônico.

Faltam forças centrípetas.

Lula 2022 é uma, sem dúvida. Mas será suficiente? Não. É muito fácil os cúmplices darem um chega pra lá no genocida e roubarem novamente o jogo. É preciso mais forças. Não pode tanta gente tão lúcida jogar no sentido de por todos os ovos nessa mesma cesta frágil como as casas de palha dos três porquinhos. O Lobo Mau está à espreita para dar mais uma soprada, com Câmara dos Deputados, STF, twitter de general, e lá vamos nós depois pras cartas de repúdio a mais um golpe.

Mas é possível outras frentes de luta para evitar mais um choque, previsível.

Continuo nas metáforas da Física do ensino médio. Lembram da soma vetorial de forças? Ponhamos mais forças em jogo, e escapemos ao destino linear da unidimensionalidade.

E é sobre uma dessas forças que quero me debruçar. Não cabe aos partidos, e sim à organização da sociedade. E nela apoios internacionais não faltarão, como não faltam na causa das mudanças climáticas e da defesa da Amazônia.

Trata-se do seguinte: antes de 2022, há gente com fome, e quem tem fome tem pressa.

E, na perspectiva da política não meramente eleitoralista, e que responda ao cotidiano das pessoas, há uma força centrípeta no mapa astral: em setembro acontece um fato a que pouquíssimas pessoas - e mesmo as maiores lideranças político-partidárias - estão dedicando pouca atenção: a Cúpula Mundial dos Sistemas Alimentares: 24 de setembro (concomitante à sessão anual da Assembleia Geral da ONU (21 a 30 de setembro).

Ocorre que esta Cúpula Mundial está capturada pelos mercados, de forma análoga, no macro, ao que acaba de ocorrer no micro com o CONSEA-SP, em que o governador paulista colocou a ABIA e a SRB na direção, entregando à raposa a guarda do galinheiro, em mais um dos minigolpes dos quais se constitui o golpe que continua em andamento, como muito bem descrito por Naomi Klein no livro “A Doutrina do Choque”. É um golpezinho aqui, outro ali. A contabilidade não é aritmética, mas a soma é o que vemos em cada votação no Congresso, ou em cada canetada nos Diários Oficiais da União e dos Estados e Municípios. Os mercados sabem o que fazem.

Organizarmo-nos em escala nacional, retesando todos os músculos para o jogo que está em curso - e há muito que fazer nas 18 semanas até a Cúpula - é o desafio a ser liderado pela sociedade civil, tendo os partidos como aliados. Poderá ser um “atrator” (termo da Teoria do Caos) que puxa o sistema para fora de um ponto de equilíbrio que aponta para a morte. Pode puxar para a vida, pode nos desviar de mais um Titanic. É uma força centrípeta, dentro da qual pode estar até contida a possibilidade de um impeachment, não necessariamente por votos do Centrão no Congresso: pode ser um impeachment mundial.

Para que esta força tenha força, é preciso que outras forças se ponham em jogo, no sentido de, juntas, levarem água ao moinho desse momento de alta densidade. Estas 18 semanas precisam atrair para o embate também a Frente pela Vida que vem se formando no país em torno da urgência do combate à COVID-19 e à defesa do SUS.

É o momento em que, somados com forças análogas que há em outros países, é possível dar um “No pasarán!” para os cartéis dos alimentos e agrotóxicos e para o agronegócio que se rentabiliza através da exportação de commodities para alimentar as populações dos países centrais. É talvez na alimentação, ainda mais que no petróleo, que pode estar a luta pelo direito elementar à vida da maior parte da população do nosso país, e do mundo. O domínio da terra, da água potável, da energia solar, para alimentar o nosso povo.

O resto, inclusive eleições em 2022, são pontos de passagem na linha do tempo de longa duração do direito à vida, à saúde e à sobrevivência do planeta. E, é preciso clareza em que a vitória em 2022 depende de vitórias nesses pontos de passagem que dialogam diretamente com as necessidades objetivas das pessoas.

Há o que fazer. É preciso nuclear e grupos e ações, contínuas e cumulativas, para aproveitar o tempo que essas 18 semanas oferecem. Felizmente a luta em reação à destruição do CONSEA pelo capitão engendrou uma liderança para esta luta: a Conferência Popular Autônoma por Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional - CPSSAN, que lançou a campanha através do vigoroso Encontro Autônomo realizado no dia 21 de maio (assista à gravação!). É preciso orquestrar a sinfonia, de alta complexidade, integrando todos os movimentos para convergir as forças que é habitual dissipar em ações pontuais e fragmentadas.

É possível vencer a força dos mercados.

Para isso é preciso respirar fundo, estudar a complexidade da situação e de todo o leque de questões envolvidas, articular cada um dos segmentos, da ciência, das religiões, dos parlamentos, até os movimentos de base, articular internacionalmente com forças que existem também em outros países, para enfrentar a força dos mercados, que, no campo institucional formal da ONU, já capturou a Cúpula.

Ainda não é jogo jogado.

Para você se informar e compreender o jogo, e identificar “qual é a parte que lhe cabe neste latifúndio”, faça um alongamento dos músculos e mergulhe nestes conteúdos que já estão disponíveis, entre muitos outros que serão produzidos ao longo destas 18 semanas, na curadoria de conteúdo do grupo FOMESSAN da Convergência pelos Direitos.

21/5/2021 - Encontro Autônomo: O que está em jogo na Cúpula de Sistemas Alimentares (Youtube, Facebook)
Conflito de interesses Corporações 1 X 0 Sociedade Civil?: Os bastidores da Negocição sobre Alimentação e Nutrição junto à ONU - Luísa do Amaral Souza, em O JOIO E O TRIGO. 18/3/21
Nota Pública “O que está em jogo na Cúpula Mundial de Sistemas Alimentares da ONU”, CPSSAN, 14/5/21

Leia também:
Pela luta política extrapartidária”, Sérgio Storch, Ciranda, 29 de setembro de 2020.
Para o enfrentamento à fome e ao alimento falso envenenado, Sérgio Storch, Ciranda, 6 de outubro de 2020
Live: A Fome e o Crime de Genocídio: resgate e transcendência na sua caracterização, no Fórum Social Mundial, 24 de janeiro de 2021, com Flávio Bastos, Fabiana Sanches, Heitor Loureiro, Eduardo Toledo, Thiago Lima.

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