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Sobre o futuro do Fórum Social Mundial

sábado 2 de janeiro de 2021, por Ciranda.net, Ciranda.net Ciranda.net Ciranda.net

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DECLARAÇÃO DAS ORGANIZAÇÕES BRASILEIRAS QUE COMPÕEM O CONSELHO INTERNACIONAL DO FSM (CI-FSM)

Desde 2018, com a realização do FSM em Salvador, Bahia - e em especial após a reunião do CI de janeiro deste ano em Porto Alegre - verificamos um aquecimento dos debates sobre o futuro do Fórum Social Mundial. Circularam textos e opiniões, todos defendendo a necessidade de o Fórum recuperar sua potência no cenário internacional.

Para nós, todas e todos são legítimas(os) para pensar e propor alternativas para o futuro comum da humanidade. Por isso, louvamos as iniciativas que apelam para um diálogo sobre as mudanças necessárias nas dinâmicas do FSM frente a um mundo cada vez mais desigual, insustentável e autoritário.

Apesar disso, nos preocupa que, por vezes, esse debate recaia para acusações e críticas pessoais. É um caminho nada construtivo. Ainda mais quando protagonizado por pessoas que têm um vínculo histórico com os processos do FSM.

Quase todas as muitas fórmulas de organização e realização do FSM já foram testadas por praticamente todos os pensamentos, segmentos, redes e alianças que estiveram ou ainda estão no FSM. Esses modelos ajudaram a aprimorar o processo, mas nenhum encontrou o método mais adequado. Nenhum conseguiu equacionar os dilemas existentes num processo internacional, amplo, diverso e radicalmente democrático.

Entendemos que as dificuldades não desmerecem o FSM, pelo contrário, o fortalecem.

Por isso, fazemos questão de afirmar que não vemos contradição entre o FSM ser um espaço de encontro, de debate e de articulação de ações e, ao mesmo tempo, ser um ator no cenário internacional.

Para nós, ele tem buscado cumprir esse papel ao longo desde 20 anos.

São incontáveis as redes e articulações surgidas nos espaços do Fórum Social e inúmeras as propostas elaboradas e implementadas ao longo destas décadas, muitas delas, inclusive contribuindo para políticas públicas implementadas por governos em vários continentes.

Entendemos que o FSM já atuou como ator global, publicando declarações, liderando ações globais, defendendo ideias e valores, embora haja controvérsia sobre isso . Tem sido um processo dinâmico, multiplicando-se em fóruns temáticos, regionais e nacionais, assembleias sociais, de mulheres, e de distintas convergências; um espaço da diversidade, da riqueza e amplitude dos movimentos sociais, como ocorreu no FSM 2018 em Salvador; e dos diálogos que marcaram as várias reuniões ampliadas de 2020.

Mas o FSM pode mais, muito mais .

Por sua história e legitimidade, pode cumprir um importante papel de rearticulação das várias formas de resistências. Acreditamos que, para isso, é preciso que haja mudanças no ambiente do FSM. Uma delas é a ampliação, em seu processo, dos protagonismos e incidência daquelas redes e movimentos que têm liderado as lutas internacionais anticapitalistas, notadamente as mobilizações contra o cambio climático, pela igualdade de gênero, antirracista, antipatriarcal, anticolonial, contra as políticas de austeridade e o desmonte das proteções sociais e econômicas das populações e em defesa da democracia.

É preciso reconhecer o envelhecimento de certas formas de lutas e a novidade das novas estratégias. O FSM deve buscar ter a amplitude e a representatividade dos movimentos de resistência globais.

A nossa diversidade também está nas formas como pensamos, organizamos e exercemos o poder.

Há culturas políticas muito distintas, umas mais centralizadoras e outras mais horizontais. Por isso, junto com este empoderamento, é preciso aprofundar uma metodologia de tomada de decisões que parta do reconhecimento e valorização da diversidade, que respeite o direito à divergência, que esteja baseada na legitimidade dos processos coletivos, no respeito e na solidariedade.

O FSM deve construir uma metodologia de tomada de decisões não hegemonista, profundamente democrática. Mas que, essencialmente, respeite as divergências, sem que seja interditada por elas. Não às ditaduras da maioria ou das minorias. É preciso reconhecer que o debate sobre a necessária evolução do método de ser e de fazer do FSM é a porta para a construção de convergências na diversidade.

Por isso, nós, organizações brasileiras que compomos o CI-FSM, saudamos a recente decisão do CI de formalizar e abrir espaços para esse debate sobre o futuro do FSM e estamos abertas a discutir a atualização da metodologia do FSM e seu papel no processo de luta anticapitalista global, desde que esse debate seja feito no clima de respeito e de cordialidade por todas as partes . Que seja um embate de ideias e não entre pessoas.

Não somos dogmáticos sobre as metodologias. Só não abrimos mão da radicalidade da democracia. O FSM deve alargar os horizontes democráticos nas relações entres nossos movimentos sociais, dando um passo fundamental para a construção deste outro mundo possível defendido há mais de 20 anos e que hoje segue sendo tão urgente e necessário.

Brasil, 28 de dezembro de 2020.

COLETIVO DE ORGANIZAÇÕES BRASILEIRAS DO CI-FSM