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Rachel Corrie agora é vítima da narrativa do conflito

quinta-feira 30 de agosto de 2012, por Guila Flint,

Ontem, ocorreu o julgamento da morte da americana Rachel Corrie, falecida em 2003, com 23 anos, ao colocar-se diante de um bulldozer Caterpillar utilizado pelo exército israelense para destruir uma casa na Faixa de Gaza palestina. O réu, inocentado, era o exército israelense.

Trecho: “De acordo com a corte israelense, o atropelamento de Corrie foi ‘acidental’ e o motorista que dirigia a escavadeira não podia ver a ativista, que se encontrava sobre um monte de areia, tentando impedir que o veículo destruísse uma casa palestina”.

Os debates podem girar ao redor de se o soldado viu ou não a americana, mas, no final das contas, a corte de Haifa acabou por condenar Rachel por sua própria morte. Por mais chocante que isso pareça, não é surpresa da narrativa que vê o conflito como um jogo de ação e reação sem explicações dentro de um Território onde não há ocupação (assim enxergam algumas visões israelenses). O conflito é apenas um ciclo de violência cheio de mortes em que não há causa, pois ele acontece em um espaço que não respeita as leis do tempo. Há apenas culpa.

O mais relevante sinal dado pela Corte de Haifa é que civis estrangeiros que entram no Território de Israel/Palestina para se envolver no que acreditam ser a injustiça da ocupação, e eventualmente morrerem, serão tratados de forma similar aos palestinos que ali vivem. Terão culpa sem causa. A decisão do caso Rachel se dá em um contexto em que se aperta o controle sobre ativistas ou mesmo jornalistas que querem olhar para a ocupação que deveria permanecer invisível.

A população estrangeira de ativistas fazem parte da sociedade do conflito, especialmente nos Territórios Ocupados. Convivi com alguns deles quando andava pelas ruas de Hebron, nos bares de Bethlehem ou quando morei por alguns dias no campo de refugiados de Askar, nos arredores de Nablus. São pessoas que largam suas vidas na Europa, no EUA ou no Brasil para, por um certo tempo (alguns, anos), para viver na sociedade da ocupação.

Nesse contexto, a família de Rachel viveu a contradição dos palestinos, que muitas vezes procuram ou têm questões de suas vidas julgadas por instâncias do judiciário israelense. É o 1 Estado que já existe de alguma forma. É nessas instâncias que muitas vezes são julgadas questões como a de se o Muro deve ou não recuar de terras de uma vila, ou, mais recentemente, se devia ser dada ou não a concessão de liberdade a prisioneiros em detenção administrativa, uma manobra de advogados para pressionar as Cortes Militares a fazer acordos na libertação de palestinos.

Mês passado tive uma conversa com Guila Flint, a correspondente da BBC em Israel/Palestina. Ela apontou algo interessante, que muitas vezes a complexidade de Israel não é compreendida porque se tenta simplificar demais o modo como funciona seu sistema político e sua(s) sociedade(s). Israel seria um regime complexo, com elementos de democracia, de teocracia e de regime militar. Seria esse sistema tripartite (aqui pensado idealmente) que governa o Território como um todo, sem que haja claramente um conjunto de regras e critérios para seu uso. Isso é a característica de um regime militar.

Rachel foi julgada por uma instância democrática mas que se usou de uma mentalidade de regime militar. O crime foi a escolha de Rachel, de estar onde estava no momento em que estava. Do lado em que estava. Não importa que o que fazia o soldado israelense fosse ilegal dentro de interpretações de leis internacionais, e que a própria ocupação que o colocava ali fosse ilegal. Rachel virou vítima da narrativa que a cada dia manipula a história do Território.

Mas ela também entra para a memória do conflito, como vítima da ocupação. Yasser Hamadan, um dos entrevistados de nosso “Sobre Futebol e Barreiras”, trabalha no AIC (Alternative Information Center), uma organização conjunta de israelenses e palestinos, enxerga com frequência esses cidadãos estrangeiros da ocupação. Perguntei a ele por que ele acha que as pessoas continuam a ir à Palestina: “há três tipos de pessoas que vem a nosso país. O primeiro, as pessoas que escapam de suas vidas, de seus países, pois têm muitos problemas em suas vidas. Eles ouvem sobre a Palestina e ficam curiosos para saber mais. Vêm viver aqui, onde não há um sistema, há ocupação, há só confusão, e é isso que estão procurando, eles querem viver na confusão. O outro tipo está aqui para conseguir experiência. Então, essas pessoas ficam 3, 6 meses e voltam para seus países, colocando em seus CVs que estiveram na Palestina. Há um terceiro tipo, que são as pessoas que acreditam em nosso direito como palestinos. Eles deixam tudo para trás, seu país, seus pais, seus amigos, seus trabalhos, apenas para apoiar os palestinos, para lutar com eles no cotidiano, contra esse inimigo na ocupação. No final, melhor que seja um desses três do que não haver nada”. Às vezes, como Rachel, há aqueles que morrem.

O caso, de qualquer forma, não acabou. A família vai apelar para a Suprema Corte. A expectativa é que um julgamento mais embasado possa ser realizado, com base numa investigação mais completa. Pois, como disse o embaixador dos EUA em Israel, Daniel Shapiro, “a investigação sobre o caso realizada por autoridades israelenses ‘não foi satisfatória nem completa’”, publicou a BBC.


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