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O aquilombamento da favela

quinta-feira 10 de junho de 2021, por Franklim Peixinho,

Os gritos começaram solitários, mas ecoaram com intensidade e apontaram o caminho do Quilombo

A nossa ancestralidade pulsa dentro das comunidades, onde falta muita coisa e sobra muita solidariedade. Aliás, esta é a leitura anticolonial do povo preto ao modelo individualista, materialista e doente da sociedade de consumo. Na favela, o filho ou filha de uma mãe preta é de toda uma comunidade, não há vida solitária ou que não seja compartilhada em suas dores e sorrisos: isto é a presença do DNA de nossa ancestralidade em cada Quilombo urbano.

Sim, a favela é Quilombo!

Do Cais do Valongo, no Rio de Janeiro às cercanias onde funcionava a rampa do Mercado Modelo em Salvador, ainda ecoam o lamento e a luta das repúblicas quilombolas de Palmares, Sacopã, Urubu... Jacarezinho, Vila Moisés.

Vinte e cinco e doze mortos, todos pretos, na favela carioca e soteropolitana, respectivamente, em atos de execução por agentes da segurança pública do estado do Rio de Janeiro e Bahia, cujas mães pretas cariocas e soteropolitanas compartilham a mesma dor. A tragédia só se diferencia no tempo, Jacarezinho ainda arde o horror, e a Vila Moisés segue seis anos sem solução.

Salvador e Rio de Janeiro são cidades negras, pontos de resistência e riqueza cultural do povo preto, e neste mês de maio de 2021, em plena pandemia, gritaram uma a outra em protesto contra a chacina do Jacarezinho e a tortura seguida das mortes de Yan e Bruno, determinadas por prepostos da rede baiana de supermercado Atakarejo, por aqueles furtarem comida.

Os gritos começaram solitários, mas ecoaram com intensidade e apontaram o caminho do Quilombo, que é a Favela. Da mesma forma que fizeram com Palmares e seus cidadãos, semelhante filme se reeditou no Jacarezinho com os seus aquilombados, que não se acovardam e seguem em frente.

O aquilombamento não está e nem se faz fora da Favela. As forças políticas progressistas, os movimentos sociais e as instituições estatais compromissadas com a defesa dos Direitos Humanos – Ministério Público e Defensoria Pública – tem que se aquilombar nas comunidades com o povo preto e não se instalar no ‘’asfalto’’, porque é tempo de guerra, que, aliás, nunca cessou, e não é de lá que se defende e luta pela favela, enquanto as forças genocidas do estado matam pessoas com banalidade e deboche, certos da impunidade.

Do contrário, o povo preto segue sozinho lutando e resistindo, pois o Quilombo é aqui!

Imagem: montagem Ciranda.net (Quilombo - imagem Johann Moritz Rugendas, Favela -imagem EBC)

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