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Morte, vida, arte, corpo

quarta-feira 6 de janeiro de 2021, por Antonio Herci,

Estar diante da morte ou, simplesmente, saber que a vida é finita, coloca o ser humano em lados diferentes de uma mesma reflexão.

Por um lado, a morte pode trazer a sensação de que todas as pessoas são iguais, têm o mesmo destino e vão para um mesmo limbo que não sabemos bem o que seja, mas do qual ninguém voltou para negar ou afirmar o que se diz.

Mas esse mesmo raciocínio também leva as pessoas a uma outra posição: a de garantir a posse eterna dos bens e continuar sendo parte de uma herança, de um testamento, dominação de classe, patriarcal ou étnica e exercer, diante da morte, a expressão disso.

Algumas pessoas podem se preparar para a morte planejando e executando a justiça, reparando e tentando estar bem com o mundo de pessoas que deixa. Uma última oportunidade de batizar-se, de confessar, de pedir desculpas por alguma coisa...

Outras preparam as formas de construir um relato de si, enterrar a imagem negativa, construir museus e bibliotecas, configurar o controle das ações e submeter, mais uma vez, o mundo de pessoas que deixa.

No entanto, parece que algo entre essas pessoas é comum: a maioria parece mesmo querer ir para o céu. Até mesmo grande parte dos não crentes, ateus e agnósticos admitem que, se houver um céu, provavelmente prefeririam ir para lá, ao invés de se submeter a tridentes e castigos diários.

Outra característica é que a quase totalidade das pessoas, tanto quanto parecem querer ir pro céu, não querem morrer.

Malgrado essa fé sincera e poderosa, nem mesmo os fervorosos religiosos querem morrer... antes, pedem, aos deuses que professam eternidade, um dinheiro ou recursos que lhes faltem para sua sobrevivência e cura, mesmo incorrendo em vida terrena de um corpo que não passa de vilania e tentação...

As artes, como parte significativa do logos humano e seu modo de vida, compartilham essa temática e, desde os mais antigos artefatos, textos, esculturas, pinturas, relevos e muitos outros, esteve em presença da morte: por ser feito para um ritual, homenagear a pessoa falecida, por ser um pensamento filosófico do que significa estar ali, diante da finitude.

Montaigne1 chega a afirmar, em um dos mais belos ensaios que a literatura nos legou, que “filosofar é aprender a morrer”, frase que parece ecoar séculos antes da boca de Sócrates, momentos antes de tomar cicuta, veneno a que foi sentenciado, conforme narrado no Fedão, de Platão2.

Diante da peste, das guerras prolongadas e da mortalidade e insalubridade social na Idade Média, os corpos tornaram-se objetos banalizados, amontoados e em decomposição, sem lugar de descanso, como prometido nas tais leis do bem e do mal.

Essa dessacralização forçada contribuiu para que as artes, e também a medicina, começassem a romper determinados dogmas quanto à dissecação de cadáveres e sua retratação — condenados como heresia por diversas ortodoxias — e inicia-se um período de edições com ilustrações e desenhos, reproduzidos por gravuras e logo combinados com a tecnologia do tipo móvel e da Imprensa Moderna, de Johannes Gutenberg (c.1400,1468), para composição de imagens e textos através de placas ou clichês.

Malgrado o enorme avanço na biologia, no estudo de plantas e animais e no estudo da anatomia, um dos maiores sucessos editoriais do período foi a produção de gravuras sobre um tema que apareceu anonimamente em pinturas e afrescos que cobriam paredes de cemitérios, igrejas e mosteiros, adaptados às comunidades onde eram produzidos: a DANÇA MACABRA, ou DANÇA DA MORTE, pintura, desenho ou gravura que retratava a morte conduzindo uma longa fila de pessoas figuradas em suas posições sociais, para a morte, do Papa e do Rei à ou ao mais humilde servo ou serva, lembrando que todas e todos cairão diante dela (Figura 1).

O sucesso editorial foi tão grande que trouxe à tona dois problemas que se tornariam a marca de nossa contemporaneidade: o DIREITO sobre a reprodução do original, seja ele em madeira, metal ou pedra. E, evidentemente, o amplo, lucrativo e descontrolável mundo da PIRATARIA.

Enquanto eram negociados direitos de reprodução de chapas e desenhos, pelos herdeiros de Hans Holbein, o jovem (1497-1543), cuja obra havia sido proibida e censurada, outros gravadores, sob a inspiração ou simplesmente copiando, imprimiam e vendiam sem autorização. Holbein é uma das importantes referências artísticas autorais do período e ajudará a sedimentar uma iconografia que será referência na representação da morte para outras criações, de sua própria época e até a contemporaneidade.

Quanto a essa iconografia, note-se a semelhança em expressar a morte como PROCESSO de decomposição, nas visões de Michael Rentz, século XVIII e Steve Cutts, do XXI: seres que ainda tem carne, mas decompondo-se, com entranhas lhes saindo do ventre, mortos vivos e que hoje veríamos nos mais variados filmes de zumbi (Figuras 2 e 5).

Grandes reflexões dos santos, sábios ou místicos, deram-se sob a presença explícita da morte, como a anunciar essa analogia entre encontrar-se com a morte e o próprio fim, como finitude, finalidade, inexorabilidade ou necessidade sublime de um momento final de PRESTAÇÃO DE CONTAS...

São Jerônimo, de Caravaggio (Figura 3) escreve, mas se tem a auréola dos santos, tem em sua intimidade a morte CONSUMADA da caveira como interlocutora.

Já a tela de Rembrandt (Figura 4) mostra a pesquisa e desenvolvimento dos recursos expressivos de pintura, perspectiva e profundidade para uma organização visual realista dos emaranhados do interior do corpo humano dissecado, com objetivos que, além dos estéticos, também são científicos.

Um dos mais recentes exemplos da DANÇA DA MORTE com tremendo sucesso editorial é o romance de terror de Stephen King3, de 2013: a história ocorre em mundo apocalíptico onde apenas uma pequena parte da população do planeta sobrevive a uma epidemia provocada por um vírus e onde, diante da destruição da humanidade, as pessoas tem que se posicionar diante da morte e da possibilidade de sobrevivência. Nesse ambiente, se revelam as mais extremas arbitrariedades e aberrações.

Na atualidade desse nosso início de 2021 assiste-se a uma bizarra reencenação da DANÇA DA MORTE: um morto-vivo em decomposição — que já se sabe não ser mais útil a não ser para a mais baixa versão do corporativismo corrupto da política — traz à mostra suas podridões, conduz pela mão uma longa fila de zumbis, agora autoguiados por suas verdades virtuais e ideologias cegas, numa coreografia macabra do negacionismo, rumando para cemitérios que cada vez mais se tornam covas rasas e anônimas. Muito nos lembra a ilustração citada de Steve Cutts (figura 5).

O fato é que o tema do encontro com a morte é, até os dias atuais de produções cinematográficas bilionárias, um dos mais recorrentes e que mais misturam iconografias consagradas — ossos, caveiras, entranhas, abandono etc... — com adaptações da contemporaneidade onde se apresente —roupas, graus de crueldade, nível de exposição e literalidade.

Toda essa impressionante galeria de reflexão sobre a morte parece ter um pano de fundo que passa por um movimento de desvalorização do corpo como centro da vida, pois poderá apodrecer um dia. Também aponta para a desvalorização do tempo da vida, pois é repleto de insanidades, imoralidades, falsidades e atrocidades.

O corpo humano, muito apressadamente, é chamado de fardo por pensadores, místicos, religiosos, políticos e outros homens de destaque do saber. Nas religiões, principalmente, costuma-se dizer que o bem maior é espiritual, que a vida eterna é inalcançável por este corpo.

No entanto, se observamos o mundo concreto, sua história de homens, mulheres, sangue, ossos e sofrimento de verdade, observamos que não é bem assim: em realidade o corpo é um aparato, talvez o único, que pode ir além da limitação dos corpos de uma forma muito peculiar: vivendo!

Se a vida pode ser considerada uma transcendência do corpo, tampouco pode existir sem ele.

Foram os corpos que acolheram, cuidaram, sobreviveram. São os corpos que se vacinam, que estudam, crescem e vão à escola. Envelhecem, alegram-se, gozam e sofrem... Transgridem e ocupam espaços e territórios vitais para sua conservação e vida.

São os corpos que produzem todas essas obras citadas, assim como são os corpos que observam, chocam-se ou riem das ironias e sarcasmos das danças da morte e suas retratações e analogias.

Aparentemente, os mais sublimes raciocínios existem nas mentes e nos espíritos apurados que em convívio podem fruir da arte, mas sem os corpos não haveriam tais mentes e espíritos e, se existem, os relatos são tão diversificados que nada se conclui de haver arte, como a pensamos em vida, depois que estamos enterrados ou cremados.

Chega a ser um privilégio, como corpo humano numa carne humana dividida em classes, permitir-se, muitas vezes, essa oportunidade pitoresca de refletir diante da morte. Outros corpos, também humanos, cuidam de tentar sobreviver e resgatar o direito à vida e dignidade, do qual foram segregados ou discriminados...

São os corpos, enfim, que apreciam a arte, vivem, lutam e derrubam presidentes fascistas do poder... e sentem que há vida neles por isso tudo ao transcender seus limites!

IMAGENS:

FIGURA 1 – ANÔNIMO. DANÇA DA MORTE. Alemanha. Séc. XVI.

FIGURA 2 – RENTZ, Michael Heinrich (1698-1758). DANÇA DA MORTE: O RICO. Viena. Edição de 1767. Lâmina 140. Livro composto por gravura em metal com 52 placas de cobre. 30,0 x 19,6 cm. Österreichische Nationalbibliothek. Domínio Público.

FIGURA 3 – CARAVAGGIO (Michelangelo Merisi, 1571-1610). SÃO JERÔNIMO ESCREVENDO, 1606, OST, 112x157 cm, Galeria Borghese, Itália.

FIGURA 4 – REMBRANDT Harmenszoon van Rijn (1606-1669). A LIÇÃO DE ANATOMIA DO DR. NICOLAES TULP, 1632, OST, 169,5X216,5cm. Mauritshuis, A Haia, Países Baixos.

FIGURA 5 – CUTTS, Steve (1995). ZUMBIS COM CELULARES, Ilustração.

TEXTOS:

1MONTAIGNE, Michel de (1533-1592). De como filosofar e aprender a morrer. In: Montaigne. Ensaios, Cap. XX, Os Pensadores - vol XI. São Paulo: Ed. Abril, 1972.

2PLATÃO (c.428aC-c.348aC). Diálogos: Protágoras - Górgias - Fedão. Belém: Editora Universitária UFPA, 2002.

3KING, Stephen (1947). A Dança da Morte. Tradução de Gilson Soares. Suma Editora, Brasil, 2013.

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