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Eterna, porém breve

terça-feira 8 de dezembro de 2020, por Antonio Herci,

À MEMÓRIA DE VIOLETA (2016-2017), que faria aniversário hoje

Talvez essa seja a máxima sobre as tatuagens: são eternas na vida das pessoas, mas efêmeras... como a vida das pessoas: eternas enquanto duram.

Outras artes utilizam meios que permanecem e podem ser conservados por muito tempo: papel, acetato, pedra, cristal de silício…

Uma escultura é achada ou um quadro é recuperado, mas a maioria dos corpos acabam decompostos e, à primeira vista, as tatuagens parecem desaparecer com eles, deixando apenas pó.

No entanto aqui estamos a conversar sobre a história das tatuagens que, assim como tantas tradições, literaturas, músicas, danças e teatros, acabam sendo eternizadas com tradições e aspectos inseparáveis de nossa humanidade.

Alguns teóricos e críticos não reconhecem as tatuagens como obras de arte.

Por um lado, argumentam que é um trabalho mais artesanal do que criativo, muitas vezes feito através de modelos ou templates. Por outro lado, as tatuagens adquiriram uma espécie de má fama e sofrem um preconceito, presente até hoje em determinadas sociedades, sendo relacionada com contravenção, pessoas desqualificadas ou marginais.

Entretanto, o cientista Charles Darwin (1809-1882) pôde constatar, ao longo da sua longa expedição pelo planeta (ocorrida entre 1831 e 1836) que tatuar os corpos é algo difundido universalmente entre os humanos. Posteriormente registrou a frase: “Não há nação que não conheça esse fenômeno”.

UM POUCO DE HISTÓRIA

Alguns registros foram feitos de marcas de desenhos pelo corpo, encontrados em grutas pré-históricas (6.000a.C) em Portugal e no Sul da França. Também foram encontradas no humano apelidado por cientistas de “Ötzi” – ancestral de parte dos europeus, cerca de 3.300 anos a.C.

Uma das hipóteses levantadas pelos cientistas é a de que os desenhos eram utilizados como uma espécie de tratamento médico, ou para diminuir a dor.

No Antigo Egito – por volta de 3.100 a.C. a prática era voltada para as mulheres, como constatado em múmias encontradas em algumas tumbas e normalmente eram desenhos abstratos de traços e pontos na barriga. Serviam, supostamente, como marcas de propriedade das mulheres que pertenciam ao harém da realeza.

Na Grécia representavam símbolos de punição, eram relacionadas a crimes, prática de delitos e escravidão. No entanto, posteriormente, a tatuagem passou a ser utilizada para distinguir as chefias e hierarquias de comando.

Em Roma a tatuagem era prática banida e reservada apenas para identificar escravos, criminosos e condenados. Isso acabou ocasionando uma coisa bastante significativa: o desenvolvimento de técnicas avançadas e muito eficientes de remoção de tatuagens, algumas usadas até hoje, provavelmente por demanda na época de egressos de presídios ou livres da escravidão.

No entanto, com mudanças culturais, os soldados romanos passaram a se tatuar como representação de coragem e vitórias nos campos de batalha.

Durante as Cruzadas as tatuagens foram usadas para identificar os soldados de Jerusalém.

Na França, no século XVII, criminosos ganhavam uma pintura na pele e, muitas vezes, uma marca com ferro quente. Por outro lado, as prostitutas, piratas e marinheiros também costumavam se tatuar, como sinal de valentia e também para demarcar seus grupos sociais.

Na China tatuar faz parte de uma cultura milenar, mas, apesar disso, é muito associada à criminalidade, inicialmente usada para marcar criminosos para o exílio.
No Japão a tatuagem é difundida desde o século 5 a.C. Ela é símbolo de pessoas estigmatizadas ou criminosas, mas também um potente signo de poder... ou submissão. O uso de tatuagens foi atrelado aos membros da Yakuza (máfia japonesa, figura 2), gerando preconceitos que perduram até hoje.

Em 1769, surgiu um dos primeiros registros literários de tatuagem, pelo navegador e explorador inglês James Cook, quando desembarcou no Taiti. Ele relatou em seu diário de bordo que os habitantes da região (de ambos os sexos) tinham o corpo coberto de desenhos feitos na própria pele e chamou esses desenhos de TATTOO (“desenho no corpo”, no idioma nativo). Eram motivos de grande orgulho e também traziam a crença de que as tatuagens proporcionavam a proteção contra doenças e má sorte. Demonstravam, ainda, a hierarquia e a posição social de uma pessoa perante o grupo.

Na Nova Zelândia (Maoris, figura 3) são importantes elementos da cultura, transbordando o elemento estético. Representam expressões sobre a personalidade, ascendência e história de cada indivíduo. Homens e mulheres tatuam o rosto como uma forma de expressão e de demonstração de sua posição dentro da tribo. Quanto mais nobre ou maior posição social tivesse alguém dentro do clã, mais o seu rosto seria coberto de tatuagens.

Durante a II Guerra Mundial (1939-1945), prisioneiros judeus de campos de concentração tinham números de identificação tatuados no antebraço (figura 1).

A tatuagem chegou ao Brasil, em 1959, por meio do tatuador dinamarquês, Knud Harald Lucky Gegersen, conhecido como LUCKY TATTOO (1928-1983), que se instalou em Santos, perto de bordéis, reforçando o estigma e a carga de preconceito que pesavam sobre a tatuagem àquela época.

Cerca de 90% dos marinheiros tinham algum tipo de tatuagem no corpo, o que acabou transformando a prática em ‘indicativo de classe’.

AS TATUAGENS NOS DIAS DE HOJE

Nas décadas de 1960 e 1970, as tatuagens    começaram a se popularizar com o movimento hippie e a contracultura.

Ao mesmo tempo reafirmaram uma importância cultural para diversos povos que habitavam o planeta, muitas vezes expressando de forma potente as identidades dentro de determinado contexto histórico, social, cultural e religioso.

Começam a deixar de ter conotação negativa e de ser símbolo de ladrões, prisioneiros, escravos ou fugitivos para se tornar uma prática social aceita, desejada e símbolo de modernidade. Desencadeiam um verdadeiro movimento estético e artístico.

Cada vez mais vai ganhando adeptos como marcas de afirmação de identidade individual e coletiva, sentimentos e ideologias, expressões de gostos, paixões, preferências, praticando uma linguagem visual carregada de elementos cifrados.
Dentro dos presídios e entre membros de facções criminosas nas superlotadas e insalubres prisões brasileiras, a tatuagem tem diversas funções, como identificar as filiações, a hierarquia e o histórico.

Segundo a Revista Super Interessante, 2014, 30% da população brasileira possui tatuagem, 51% são mulheres, 14,8% são formados e apenas 9% têm entre 19 e 25 anos.

As tatuagens também pesam, na contemporaneidade, como parte da memória da escravidão. Escravos eram marcados, muitas vezes, com ferro quente, para garantir que não fugissem ou comprovar a propriedade. Até hoje seres humanos são marcados e catalogados para o trabalho escravo!

Se é símbolo do horror do Nazismo, é também sinal de resiliência e força do sobrevivente, que salva consigo toda a humanidade.

Parece ser um símbolo de eternidade, composta da brevidade da vida, mas tão eterna quanto ela.

Violeta faleceu com três meses e faria aniversário hoje.

Seu pai, Vitor, sua mãe, Marília e sua tia, Camila, tatuaram a imagem de seu pezinho em partes do corpo, usando como modelo a impressão do hospital (figura 4), como expressão de conservação eterna dessa marca de existência.

Violeta foi a mais eterna das brevidades, dessas que dão sentido à vida!

A arte da tatuagem tem tal força simbólica que, ao esculpir nos corpos, consegue, através da marca na brevidade da existência humana, tocar a eternidade pela memória e pela falta.

SERVIÇO

Agradecimento à Professora Doutora CRISTINA CAPONERO, pela ajuda nos textos, catalogação de imagens e parceria pedagógica.

TATUAGEM EM CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO (figura 1). LaleSokolov, prisioneiro e tatuador de número de identificação judeus, entre 1941 a 1943.

TATUAGEM MAORI EM MULHERES (figura 2). Considerada um dos tipos mais antigos de tatuagem, a tatuagem MAORI é praticada por homens e mulheres.

TATUAGEM EM MEMBROS DA YAKUZA (figura 3).

TATUAGEM DO PEZINHO (figura 4, coleção particular). Tatuagem feita por Marília, Vitor e Camila, em memória da Violeta (2016-2017), meu genro, filhas e neta.

Estudo traz Perfil da Tatuagem no Brasil. ReVista super interessante, 6 jun 2014.

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