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Engajamento ao FSM reflete diversidade e resistência

domingo 27 de janeiro de 2008, por Rita Freire,

Ciranda entrevista Roberto Savio

Desta vez, o FSM parece ter jogado alto ao apostar em uma ação descentralizada, de alcance global, que poderia inclusive ser um não-fórum diante das dificuldades de
mobilização dos últimos anos. Acha que foi uma decisão acertada?

Mudar um Fórum Mundial físico, em um lugar preciso, com fórmulas tradicionais de participação em diálogos e seminários, para uma mobilização mundial foi uma decisão cheia de riscos. Nunca na história se imaginou que em um dia milhares e milhares de pessoas se mobilizassem em total liberdade — de fómulas, temas e conteúdos — em um marco conceitual amplo e também urgente.

Quando esta decisão foi tomada, não estava nada claro o que aconteceria. Há poucos dias, o número de eventos em certa de 100 países deixou claro que a decisão foi certa. Obviamente, é preciso reconhecer que o êxito se baseia em uma realidade impactante: o número de cidadãos que querem expressar seus chamados por um mundo melhor e diferente é a razão dessa imensa mobilização. Porque é preciso recordar que, além de chamar à mobilização, o Conselho Internacional não pode intrometer-se em nenhuma direção de nenhuma organização.

Tudo é local e voluntário. E repito: algo dessa natureza nunca foi tentado na história. O fato de que o sol se levanta no sábado na Austrália e Nova Zelándia, se põe na Oceania e em todo o seu percurso ao redor do planeta verá gente se manistando pelo caminho, de maneira espontânea e participativa, mostra que o clamor por um mundo melhor é amplo e compartilhado.

A diversidade de ações inscritas mostra que os mais diferentes modos de ativismo se reconhecem no FSM, das lutas internacionalizadas às manifestaçõess lúdicas, artísticas, e também as filantrópicas, humanitárias, assistencialistas e até de cunho espiritual ou
religioso. Não é uma colcha com retalhos demais para ser transformadora?

Se uma coisa está sendo aprendida na globalização é que ela desperta defesas de identidade, história, valores e culturas diferentes, que fazem o frescor da humanidade.
É a razão pela qual o McDonalds se viu obrigado a fazer hambúrgueres vegetais na Índia. Um mundo de diferenças é um mundo rico e construtivo. A globalização neoliberal quer reduzir os parâmetros dessas diferenças, para reduzi-las a um mercado mais homogêneo e portanto mais facilmente compactável em propostas comerciais de grande massa. Dar espaço às diferenças nas quais se expressam os participantes do grande movimento que quer um mundo melhor é a maneira coerente e eficiente de mostrar a riqueza do movimento, ajudar uma osmose espontânea de culturas e identidades e também lutar contra a estandartização e homogenização. Isto tem grande importância na política e nas institucões nacionais, que são débeis em relação aos grandes motores da globalizaçao neoliberal: o comércio e as finanças.

Alguns lugares nos quais o FSM se realizou estão hoje imersos em conflitos enormes, como o Paquistão, sede do FSM em 2006, e o Quênia, em 2007, que dificultam sua participação na Ação Global. Acha que o FSM faz diferença em situações extremas?

É uma pergunta muito interessante. Aparentemente, só em lugares onde a participação democrática é permitida e os cidadãos podem mobilizar-se em torno de idéias e temas que chocam o poder, o FSM teria espaço. Na realidade, em muitos casos o Fórum se mostrou como um lugar de encontro acima das diferenças políticas e partidárias.
Foi essa a experiência de Nairobi e Karachi, onde os Fóruns tiveram um grande sucesso, embora houvesse em ambas as cidade uma administração local de cunho muito conservador.

Neste sentido, a lição que é preciso tirar é que os Fóruns constituíram etapa importante de expressão cidadã e de construção da democracia. Os fóruns certamente não são suficientes para que acabem conflitos e tragédias. Mas a democracia é um caminho que somente tem êxito se os cidadãos a colocam em prática. Ter havido dezenas de milhares de pessoas (mais de cem mil em Nairóbi) que durante dias discutiram como melhorar a governabilidade e a sustentabilidade de sua realidade é um passo importante nessa direção

Para quem está na cobertura internacional do FSM desde a primeira edição, os temas que hoje mobilizam a construção de alternativas mudaram muito?

A primeira tarefa de quem deseja que exista comunicação e informação é escutar as pessoas. Nisto reside a primeira diferença fundamental com o sistema informativo comercial. Nesse não se trata de escutar, mas de se fazer escutar pelas pessoas. É um sistema vertical, no qual os que transmitem, pouco importa se pela imprensa escrita ou por meios eletrônicos, buscam que os cidadãos escutem e aceitem o que é transmitido.
Hoje chegamos a uma situaçao sem precedentes, em que o leitor é um mercado. Busca-se que ele escute, não que enxergue. A tarefa dos que estão neste trabalho e participam do caminho do FSM, pelo contrário, é escutar o que venha da infinidade de manifestações ao redor da Terra e saibam fazer de seus conteúdos e chamados as contribuições a nosso debate e a nossas buscas. É por isso que o tema da comunicação é um tema vital para o crescimento e força do movimento.

O formato descentralizado do FSM transportou a edição 2008 para o território da comunicação, embora sem as grandes tecnologias para transmissões simultâneas ou recursos para montar escritórios de imprensa nos continentes. E ao mesmo tempo existe um trabalho mundial de comunicação sendo feito, capaz de articular entrevistas coletivas simultâneas. Em que se baseia essa comunicação?

As novas tecnologias de comunicação têm uma natureza contraditória. Mesmo que graças a elas se tenham criado corporações milionárias, e homens de riquezas sem precedentes, como Bill Gares, o êxito comercial dessas empresas se baseia no acesso e, portanto, na participação de um número sempre maior de pessoas. É emblemática a diferença entre Bill Gates e Rupert Murdoch. As novas tecnologias permitem criar alianças que a informação nunca sonhou em estimular. Não é por acaso que em Beijing, na Conferência Mundial da Mulher, os governos perderam o controle frente à plataforma das mulheres reunidas em alianças e organizações não-governamentais. Isto aconteceu porque centenas de organizações de mulheres, intercambiando entre si, chegaram a Beijing muito mais preparadas que as delegações governamentais. O acesso aumentou, mesmo que continue desbalanceado entre Norte e Sul e por renda econômica.
Isto permitiu que o primeiro Fórum Social Mundial visse chegar, não as 20 mil pessoas esperadas na hipótese mais otimista, e sim mais de 70 mil participantes. A grande diferença deveu-se à Internet, com a qual se conseguiu que, em poucos meses, milhares de pessoas soubessem da convocatória de Porto Alegre e, sempre graças à Internet, começaram seu processo de participação.

Sem internet, a mobilização deste ano seria um desastre. Teríamos atividades apenas nos países em que há gente do Conselho Internacional do FSM. No entanto, elas existem onde sequer há cidadãos que tenham participado de alguma edição. São pessoas que se somaram ao movimento pela Internet, que se sentem parte do processo do FSM. O desafio de nossa comunicação é poder recolher todo este grande pulmão de um novo renascimento mundial. Para isso, a existência de um mecanismo de intercâmbio, como a Ciranda, de trabalho informativo para a base, como Amarc, ou de criaçao e distribuição de notícias, como Inter Press Service, e níveis regionais como Alai, foram estimulados pelo caminho de participação que o FSM significa.
Existem centenas de publicações, associações, rádios e TVs, assim como milhares de jornalistas que se reconhecem no espaço ideal do FSM. É certamente um dos maiores déficits do processo não termos sabido articular e fortalecer esta realidade rica e forte do panorama informativo.

Assim, continua aberto o desafio de aumentar o intercâmbio e a comunicação entre as centenas de milhares de organizações que são a base ética e humana do processo. A comunicação até agora tem sido a gata borralheira do FSM. Basta dizer que todo o processo de informação e comunicação, de mobilização mundial, custou cerca de 100 mil dólares, algo que para Murdoch é uma cifra de cartão de crédito.

A IPS-Terra Viva sempre publicou suas edições impressas e diárias nos FSM anteriores. Como será a cobertura desta vez, em que o FSM se dá no mundo todo?

Esse novo formato de Fórum Social Mundial nos obriga a inventar fórmulas novas, que se baseiam nas novas tecnologias. Assim, teremos um TerraViva, diário do FSM, por via eletrônica. A isto se soma uma campanha de imprensa baseada em entrevistas com grandes personalidades que apóiam o movimento, uma distribuiçao orgânica e sistemática de artigos, com uma grande atenção ao que venha das pessoas, que são as verdadeiras protagonistas do FSM. Trata-se de seguir as palavras da grande cantora chilena Violeta Parra "Escuta a voz do povo, que canta melhor que eu...."