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Desligue!

domingo 23 de abril de 2006, por Denis Meneses,

DENIS MENESES: Em que ano o Desligue a TV foi ’instalado’ aqui no Brasil?

MARCOS NISTI: Foi ano passado, em 2005. Esse ano é o primeiro ano de campanha, mesmo começando em outubro de 2005. Então, a primeira semana do "Desligue a TV" é agora, em abril, começando na segunda-feira (24 a 30 de abril)

DM: A campanha está localizada em São Paulo. Como é que vocês estão buscando parceria com outros estados?

MN: A campanha, na realidade, é nacional. Começamos em SP até por questões físicas e estamos tentando contato em vários lugares do país. A gente recebe esses contatos hoje via site, onde as pessoas se cadastram e falam que querem nos representar em algum estado. Então, a gente busca, a partir dessa primeira semana, várias outras ONG’s para serem parcerias da gente em outros estados

DM: Como estão sendo as chamadas da campanha?

MN: Hoje, até por questões de recursos, temos a mídia espontânea como grande aliada. Então, temos hoje as agências de notícias internacionais que estão divulgando a matéria em função do "Desligue a TV" ser um projeto internacional, e quando as notícias chegam no Brasil por intermédio das agências internacionais, vocês nos têm como representante. Sendo assim, a mídia e ações como essas desse porte (palestras, seminários, etc), nas quais você tem um público disposto a ouvir esses assuntos, a gente vai e tenta dá o recado.

DM: Como você faz a avaliação de como está a campanha em São Paulo? Está funcionando?

MN: Em São Paulo, o bacana, que é uma coisa bastante brasileira, é que o movimento está sendo agora, na manhã, realizado também numa zona de menor IDH de São Paulo, que se chama Jardim Pantanal, uma das mais pobres do estado, você tem já, através do Instituto Alana, um workshop já prometido para os próprios moradores e alunos de lá, onde aceitaram receber o projeto e aceitaram lançar nacionalmente o projeto. Vai ter uma baita de uma festa lá, com artistas da própria comunidade, super bacana; isso num palco feito no meio da favela. Isso pra gente é muito importante e foi a principal vitória disso, porque mostrou que pode ser um projeto que pode ser vindo de um lugar da classe social para o povo que menos espera que isso venha; eles esperam que, não ver televisão, é uma coisa elitizada, pois é muito mais fácil pra elite do que pra classe menos favorecida, mas não. Portanto, o Brasil está dando uma amostra super bacana, positiva, pra outros lugares em que a gente consegue fazer aqui com classe baixa, que já pode ser feita por toda a sociedade. Em São Paulo, temos folders nos metrôs, algumas exposições gratuitas em museus nesta semana. Está bastante bacana esse projeto.

DM: Freqüentemente, a MTV vem colocando no ar algumas vinhetas, sugerindo que o telespectador ’desligue a TV e vá ler um livro’. Ela tem algum vínculo de partnership com a campanha "Desligue a TV" ou não possue ligação?

MN: Não. A MTV começou através da MTV Internacional, que tem um projeto com o ’Turn Off TV,’ lá nos Estados Unidos, então essa idéia de tirar a TV do ar veio da MTV americana que trouxe isso pra cá e aproveitaram a idéia aqui, mas não tem nenhuma relação com o "Desligue a TV" aqui no Brasil. Tanto é que o projeto veio na mesma época pra cá, o "Desligue a TV" junto com a vinheta da emissora.

DM: Como é que está repercurtindo, estatisticamente falando, a campanha aqui no país?

MN: Estamos, hoje, com mais de três mil inscritos no site. Pra um primeiro ano, foi bem melhor que os Estados Unidos. Só que a gente, nesse primeiro momento, não vai medir a quantidade de TV desligadas nesse primeiro ano, pois queremos consolidar a marca, a campanha como um projeto sério e a partir do ano que vem começar a medir.

DM: O Brasil é campeão é mundial em recorde de ficar em frente à TV. Qual argumento vocês estão utilizando para que as pessoas se conscientizem mais e se afastem da televisão e procurem um modelo diferente de vida, segundo a idéia de vocês?

MN: Esse foi um recorde, inclusive, conquistado muito fácil, e o próprio recorde é um argumento que a gente utiliza para mudar essa situação. Hoje você tem alguns dados muito sérios em relacao à saúde, à obesidade infantil, à hipertensão — inclusive em crianças, o que era raro de se ver — e são dados, por incrível que pareçam, ligados à tv. O "Desligue a TV" é hoje um projeto de interesse público e ao mesmo tempo de saúde publica, apoiado, aliás, por uma das melhores escolas de medicina do mundo, portanto, todos os projetos iguais ao nosso, hoje, têm apoios de institutos médicos. Sendo assim, a saúde, a educação, a psicologia e a socialização são argumentos que utilizamos pra falar e tentar convencer a população da nossa idéia.

DM: De que forma você acha que a TV hoje pode ser explorada para ser um benefício à sociedade?

MN: Essa, aliás, é uma das obrigações por contrato de concessão. As emissoras são obrigadas a levar valor para a sociedade, pois está lá no contrato. A concessão, nós, população, que demos pra elas. O que a gente está tentando fazer é, simplesmente, exigir que eles cumpram um contrato que leve uma TV de qualidade para nós, onde a audiência pela audiência não seja uma única busca, onde também você consiga levar educação e valores sociais através da tela.

DM: Creio que a TV Cultura deve ser um referencial para a campanha em si. Mesmo com sua qualidade de programação, ela é uma das emissoras no Brasil que maior alcança traços de audiência, então, as outras emissoras seguirem um conteúdo de programação seria também um objetivo que o projeto pretende atingir?

MN: Só pra você ter uma idéia da vanguarda da TV Cultura, em 1994 eles lançaram uma linha de propaganda de TV, que falava mais ou menos assim: "olha, sabemos que temos excelentes programas culturais aqui, mas nada como você ir ao teatro para sentir o que é um ator representando’ ou "temos programas de circo, mas nada como você está num picadeiro presenciando a alegria das exibições". Eles soltaram uma linha de comerciais — isso em 1994, ano de fundação da "Turn Off TV" —, mas a gente se preocupa hoje um pouco, porque ela está tendo que se render ao marketing, não está sendo mais uma TV financiada somente pelo Estado, fazendo com seja aberto espaço ao mercado publicitário. Acendeu uma luz amarela na TV Cultura, por isso temos que prestar bastante atenção nela. No entanto, ela continua com uma programação de absurda qualidade, é uma excelente televisão, que recomendaria qualquer pessoa a assistir, mas tem patrocinadores e patrocinadores com grandes interesses. Achamos, principalmente, que ela naquele formato anterior de ter uma ajuda bastante grande do Estado, era um formato bem mais democrático, mais saudável.

DM: Qual a programação que a campanha tem como referencial para as emissoras de televisão aqui no Brasil? Por exemplo, programas educacionais, que fazem referência ao estudo da língua portuguesa, etc.

MN: Não entramos, hoje, tanto no ’Desligue a TV’ como um projeto na qualidade de programacão, mas entramos muito na quantidade da programação. Porque acreditamos que, se você quiser assistir a um filme, você vai assistir a um filme que voce só busque qualidade nele. Você vai querer buscar educação na televisão, mas vá buscar num programa de qualidade. Acreditamos que o telespectador que tem que escolher a TV, não a TV escolher o telespectador. O poder está nas sua mãos. O poder do programa, do tipo de programa, mesmo sendo um programa de puro entretenimento, mas esse programa tem que estar na tua mão.

DM: Vai ter algum dia específico ou hora para a TV ser desligada, ou será toda a semana?

MN: A proposta mesmo é seguir um modelo internacional, que é a semana inteira. Porque não estamos medindo a quantidade de televisões desligadas, o que pedimos para as pessoas, que queiram colaborar conosco, participem dessa semana até como cobaias, e nos escrevam como é que foi essa experiência, porque queremos publicá-la. Mande-nos como nome, idade, grau de formação, dizendo o que você sentiu, o porquê da sua semana ter sido diferente e informações relacionadas à experiência.

Serviço
- Site da campanha
- Instituto Alana
- Turn Off TV Network

Produção e edição: Denis Meneses
Agradecimentos: Marcos Nisti e Luciana Mendes