Página inicial > FSM WSF 2016 > Wangui Mbatia: morre a queniana que forçou os portões do FSM

Wangui Mbatia: morre a queniana que forçou os portões do FSM

domingo 12 de fevereiro de 2017, por Rita Freire, Translated by July Ammateur

Todas as versões desta matéria: [English] [Português do Brasil]

Responsável por levar os jovens das favelas para dentro do evento, em 2007, Wangui Mbatia defendia o espaço FSM para que os que lutam por alternativas não se sintam sós. Nem loucos.

Wangui Mbatia, aquela jovem que ficou conhecida do FSM em 2007, quando se reuniu e marchou com um grupo de ativistas pobres até os portões do Estádio Kasarani, de Nairobi, exigindo entrada no território do FSM sem pagar a taxa de inscrição, e protestando contra o preço dos alimentos vendidos aos participantes, morreu ontem (11) depois de três anos de luta contra o câncer .

Ela era, de fato, uma das ativistas e intelectuais ligadas às lutas populares mais conhecidas do Quênia, envolvida em muitos dos movimentos de base desde a mobilização que influenciou o processo de revisão constitucional do Quênia. Foi uma das fundadoras e uma liderança de "Bunge La Wananchi" (Parlamento Popular) , um movimento social nascido daquele momento em que o Quênia debatia sua Constituição em busca de um estado mais democrático.

Seu discurso depois de entrar no território FSM e receber o apoio dos participantes ecoam até hoje:

"Como você pode começar este Fórum com uma marcha através das favelas, e depois negar aos que vivem lá uma chance de participar? Se você visitar as favelas, você vê o pior de nós - você vê apenas a nossa miséria e nossa pobreza. Você não vê o melhor de nós. Viemos aqui para mostrar-lhe o melhor de nós - nossa energia, nossas idéias, nossas experiências. Temos tanto a contribuir para este Fórum - como você pode ter um debate sobre as soluções para a pobreza e excluir os pobres? " (Danny Report)

Wangui Mbatia e os jovens da favela de Kibera e Korogocho, que a acompanharam, provocaram críticas à organização do FSM e autocríticas no processo FSM, levando à elaboração de critérios para assegurar a participação democrática e mais rígor quanto aos fornecedores de serviços e alimentos no eventos. Em Nairobi mesmo, o stand de um hotel que vendia comida foi obrigado a imediatamente baixar seus preços a valores populares.

Entre as criticas ao evento, vale lembrar um artigo da Open Democracy, ao reconhecer "um talento político surpreendente" na jovem liderança.
" Infelizmente, ela teve que dirigi-lo para dentro, contra uma organização terrível que fechou o FSM da sociedade queniana, quando ela deveria ter sido apoiada por ele a dirigir a sua eloqüência calma e determinada ao resto do mundo".

Participantes da edição do FSM em Dakar, Senegal, 2011, voltaram a encontrá-la, desta vez enfatizando a necessidade de valorizar o espaço construído pelas lutas populares. Algumas de suas frases podem ser conferidas nas entrevistas para a Kontext TV e veículos da imprensa alternativa naquela edição:

"Você realmente vem ao Fórum Social Mundial e acha que, afinal, você não está louca ou que os outros são ainda mais loucos que você. Então, há um certo senso de validação"

"Há muitas divisões ao redor do mundo e eu acho que o Fórum Social Mundial faz é tentar reduzi-las"

"A maioria das discussões que são encontradas no Fórum Social Mundial não é mainstream, não são assuntos que você vai encontrar na mídia, o que torna ainda mais importante ter um espaço onde podemos ter uma discussão entre os Dalit, que são os intocáveis ​​da Índia e os imigrantes ilegais na Europa, que de alguma forma são intocáveis ​​na Europa - suas circunstâncias são praticamente as mesmas ... "

Até sua morte, a ativista dirigiu a Rede de Organizações Populares KENGO, "uma rede de mais de 2.000 organizações de base ativadas e registradas no Quênia que, por meio da participação popular, enfrentam a pobreza usando uma abordagem de baixo para cima e baseada em direitos" conforme apresentação da entidade.

Wangui Mbatia foi diagnosticada com câncer em 2014. De acordo com o jornalista keniano John Onyando, ela enviou, na época, um e-mail aos colegas sobre o atendimento à doença em Nairobi:

"Câncer é inteiramente outra história. Temos apenas 18 oncologistas para uma população de mais de 40 milhões e 12 deles estão em Nairobi e todos eles são caros. Com isso, eu me conformarei com a conscientização de que o câncer não é igual à morte e, espero, encorajar as pessoas a se abrirem para que não nos sintamos tão sozinhos quando passamos por ela ".

Foi casada com Polycarp Masaki e deixa também um filha, Celine.