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Fórum Social Mundial

Visões do passado para a experiência do agora

quarta-feira 28 de janeiro de 2015, por Deborah Moreira,

Para os participantes da mesa sobre o histórico do FSM, todos integrantes de seu Conselho Internacional, o megaevento que surgiu em oposição a Davos cria novas dinâmicas entre indivíduos e movimentos e gera saltos de consciência na busca do coletivo.

Em cada olhar uma experiência. Para viver o Fórum Social Mundial hoje é preciso resgatar o passado, unificar no que é possível e agregar o novo. Foi dessa forma que se colocou a mesa “Os Olhares sobre o Percurso Histórico do Fórum Social Mundial”, formada durante o Seminário FSM Rumo a Túnis, que ocorreu entre quinta (22/1) e sábado (24). O Fórum Social Mundial (FSM) desencadeou processos paralelos e transversais a seu próprio eixo, enquanto esteve em ebulição nestas terras. Para os especialistas que formaram a mesa, todos integrantes do Conselho Internacional do FSM, o megaevento cria novas dinâmicas entre indivíduos e gera saltos de consciência na busca do coletivo.

Salete Valesam Camba, da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso) que iniciou sua fala refletindo a importância da Bahia em sediar este evento, com sua forte herança africana, lembrou que o Fórum foi criado para contrapor o Fórum Econômico de Davos incentivando novas práticas, como na educação.

“Para um outro mundo possível, uma nova educação é necessária. Foi um dos grandes debates que teve e que foi necessário para puxar para uma outra realidade a frente dessa temática dos direitos, que é o direito à educação, houve uma união da sociedade civil e governo para construir o Fórum Mundial de Educação”, recordou, citando os primeiros anos do evento, em Porto Alegre, já emendando com o FSM da Índia, em 2004, que foi um “contraponto a nós mesmos” permitindo a compreensão da vida a partir de outra cultura, outra lógica.

Para ela, “o nosso debate continua permanentemente o mesmo, porque ele ainda não se renovou”. Em sua visão, a educação precisa ser compreendida enquanto processo histórico de construção e transformação da sociedade.

E qual a comunicação que queremos? Rita Freire, da Ciranda Internacional da Comunicação Compartilhada, mencionou a experiência ocorrida entre os movimentos brasileiros e latino-americanos que vivenciaram as dificuldade em se cobrir um FSM com pouca ou nenhuma estrutura e, mesmo assim respeitar as diferenças que estavam postas. O respeito a diversidade é uma tônica do FSM daquele tempo, e os movimentos tomavam para si como bandeira de luta e resistência.

“Os comunicadores independentes começaram a se aproximar do processo para contribuir com essa resistência dos movimentos. E fazer essa resistência exigiu de nós criarmos outras formas de cobertura que acabaram gerando o conceito de comunicação compartilhada em que reunimos conhecimento, equipamentos e ideias. E isso foi se transformando em diversos projetos audiovisuais de cobertura”, disse Freire.

Exercitar o compartilhamento das informações levou os comunicadores ao campo mais político, do debate, da proposição de alternativas no Brasil e América Latina, o que culminou na formação de um fórum brasileiro de comunicação e, posteriormente, ao Fórum Mundial de Mídia Livre, que começou em 2009, em Belém.

Ainda em seu relato sobre o que viveu ao longo desses 15 anos de FSM, a cirandeira provocou os jovens presentes lembrando que os ares do fórum no início têm muito em comum com o que eles têm experimentado agora. “Estávamos ali num momento de esperança, de salto da consciência da importância nas ruas, que estava sendo dada pelos movimentos que tomaram Seattle (nos EUA) para acabar com as instâncias de governo, do mercado, como a OMC (Organização Mundial de Comércio), e estávamos na véspera da Rio+10, a gente sentia que tinha um protagonismo e que tinha que ocupar as ruas, como agora”, afirmou.

Sobre o recente atentado contra cartunistas do jornal francês Charlie Hebdo, Rita Freire enfatizou que a tragédia agora vem sendo usado para atacar novamente a diversidade - especificamente os muçulmanos - em uma cobertura midiática desproporcional. "Enquanto a mídia dá ampla visibilidade aos cartunistas assassinados, os profissionais da imprensa que cobrem guerras como na Palestina nem são notícia. Em 2014, foram 16 jornalistas mortos na região dos bombardeios contra Gaza e ninguém sabe seus nomes", lamentou.

O representante da Central Única dos Trabalhadores (CUT), o secretário de Relações Internacionais Leonardo Vieira, também reforçou a importância em abrigar os novos movimentos. “Temos o desafio de incluir os novos movimentos, que nem conseguimos nomear ainda, como os occupys, indignados”.

Vieira fez questão de falar dos significados que o FSM e seus pensadores deram aos acontecimentos, “como o neoliberalismo, que antes era (um tema) mais restrito ao meio acadêmico e acabou se popularizando por conta do fórum”. Muitos acadêmicos e lideranças tiveram a chance de expor aos participantes do evento os males desse sistema econômico capitalista. Também foi tirado o véu que escondia as transnacionais, “que estão por trás de todos os grandes problemas da sociedade”.

Para o secretário de relações internacionais da CUT, há um novo momento conjuntural no País que revelam muitos desafios locais para os movimentos sociais. “O último fórum na Tunísia foi um sucesso e mostra que há vitalidade no processo, mas também nos mostra que o Brasil tem uma responsabilidade em permanecer presente. É preciso buscar convergência entre os movimentos para que a gente unifique pelo que temos em comum”, completou.

“A África está assumindo essa bandeira”
Para se ter uma idéia do quanto a África hoje está inserida no processo do fórum, Hamouda Soubhi, diertor executivo da Rede Marroquina das ONGS Européias e Mediterrâneas e co-fundador no Marrocos do Fórum das Alternativas do Sul, recordou a quantidade de fóruns realizados no continente: 5 fóruns mundiais, 40 fóruns temáticos e 7 fóruns africanos.

“O fórum é algo muito importante para o continente africano. O primeiro conselho internacional se encontrou em Dakar, em 2001, e a partir daí os movimentos sociais africanos se integraram”, mencionou Hamouda Soubhi, lembrando que mesmo não tendo condições de participarem de todos os fóruns, os africanos formaram várias redes – como saúde, educação, a questão das mulheres – o que permitiu “quebrar as clausuras”. Seja no Senegal, no Mali, Egito, Marrocos ou Tunísia, os encontros têm acontecido e gerado algumas mudanças.

“Estamos em marcha e queremos mostrar ao mundo que somos capazes de colocar pra fora as ditaduras, de mudar seus governos, de colocar uma frigideira no lugar de seus assentos para que eles não voltem a sentar. É preciso acreditar nessa mudança. Eu gostaria que o próximo fórum social mundial fosse aqui (em Salvador). Assim teremos seis fóruns sociais africanos”, exclamou Soubhi.

Fonte: Imprensa SEESP