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Sobre o conceito de estrutura global

domingo 31 de janeiro de 2010, por Estratégia & Análise,

Sobre o conceito de estrutura global

28 de janeiro de 2010, da Vila Setembrina, Bruno Lima Rocha

Introdução

Um dos grandes problemas na atual produção, difusão e incidência da literatura de tipo ou pretensão científica nas ciências sociais e humanas é a diluição de conceitos, ou pior, a tautologia. Um exemplo clássico é o da categoria de estratégia. Uma vez abandonada sua significação de origem - como arte ou ciência do estudo da guerra ou da ação violenta e organizada motivada por interesses irreconciliáveis - a categoria torna-se um todo que nada significa. Por entre laudas sem fim de auto-ajuda gerencialista, a “estratégia” torna-se a varinha de condão para qualquer coisa. Infelizmente, nada disso é à toa, sendo um reflexo da luta política, teórica e epistemológica que vem sendo travada contra a pós-modernidade, o multiculturalismo de tipo lavado e todas as formas empregadas pelos porta-vozes da Globalização das Transnacionais. Nesse sentido é que estabelecemos o debate do conceito de ESTRUTURA GLOBAL.
O conceito de estrutura

O conceito de estrutura(s) é para nós a composição de seus elementos e suas relações, sendo que o relacional também compõe as estruturas. Não se estabeleceria a priori a determinação de uma estrutura sobre as outras. Essa dominância seria produto das análises respectivas e não estão dados a priori. A figura proposta é a de uma resultante de um encadeamento que se retroalimenta. Vale dizer então que seria uma estrutura global sem predomínio pré-estabelecido de uma esfera sobre outra. Ou seja, sem determinância a não ser a interdependência. O “determinante”, se queremos usar o termo, seria a matriz que esse conjunto global capitalista possui no atual período. Tomamos assim a sadia distância do reducionismo assim como do relativismo.

O conceito estrutura se aplica, inicialmente, de duas formas considerando os objetivos desta série de difusão científica, tendo por base uma tese de doutoramento em ciência política e esta sendo a versão acadêmica de um documento político-teórico de base libertária. Deste modo, se aplica para as relações de mudança mais lenta e para as relações de mudança mais rápida. Ou seja, são distintas as velocidades de mudança e de transformação, entrando neste cálculo duas variáveis:

Alternância - mudança mais rápida e com menor grau de conservação
e
Permanência - mudança mais lenta e com maior grau de conservação

Por exemplo, uma estrutura do aparelho coercitivo do Estado pertence às de mudança lenta e as práticas do ativismo político as de mudança mais rápida. Tampouco se tenta a priori estabelecer homogeneidade de tempo entre as distintas esferas que compõem a totalidade social. Seu ritmo de mudança, dito em termos “teóricos” é questão para precisar com muito cuidado. Desta forma temos um sistema, o capitalista, que atravessa várias etapas históricas mantendo elementos estruturais que o reproduzem em suas distintas variantes em seu devir histórico.

O modelo de estrutura global

O modelo mantém o caráter de “autonomia (ou independência) relativa” das distintas esferas. Estas esferas maiores são as três repetidamente citadas como as de interdependência estrutural: Ideológica-Cultural / Política / Econômica. Estas três esferas são atravessadas pelas TICs como nova linguagem universal do sistema-mundo. Todas têm em seu interior a elementos que constituem por sua especificidade outras esferas que chamaremos menores pelo momento. Também afirmamos existir uma autonomia que existe entrecruzada em perpétua articulação e inter-influência. São esferas interdependentes, onde as esferas menores têm equivalência aos níveis de análise e incidência (a saber, estes níveis podem ser tão esmiuçados quanto for possível analisar e incidir sobre as sociedades concretas). Aplicamos o termo esfera para substituir outros substantivos que podem dar idéia de blocos estanques ou separados.

Retomando a categoria ideologia - a mudança de longo prazo

Por ideologia entende-se, como já foi assinalado antes, ser a mesma composta de sistemas internos que tem também sua “autonomia relativa”, tais como: idéias-práticas, tecnologias de poder, representações e comportamentos. O disciplinamento, por este modelo, se aplica tanto para o funcionamento mais direto do sistema em geral como para comportamentos específicos. Na definição de ideologia é importante reiterar algo de fundamental importância. Tudo o que tiver relação com o conceito Resistência atravessa aos sistemas ideológicos sem pertencer a tal campo já que se trata de uma categoria mais geral e que aparece em todas as esferas. Afirmamos também que nos lugares de existência das formações sociais concretas é onde pode se produzir elementos ideológicos de antagonismo, possível rebelião, resistência latente. Esta formação ideológica de indisciplinamento se dá em função das práticas societárias que os sujeitos sociais devem realizar em sua vida cotidiana. Assim, o cotidiano produz e reproduz as condições de sua existência.

Queremos retomar algo que já foi exposto em textos anteriores. É a idéia básica de que a ideologia é um terreno composto de certos objetos e o saber científico é outra. E que a ideologia não tem como objeto conhecer, a ideologia manifesta a crença e o modus vivendi com suas significações. Neste sentido, o conceito de estrutura global trafega por infovias e atos comunicacionais contínuos.

Algo sobre o papel da indústria midiática na atual etapa da Globalização

Neste modelo que viemos narrando, reconhecemos a existência e deixamos para outras oportunidades toda a relação do mundo mediático, tanto na sua produção de conteúdo, como na atuação política e em sua organização empresarial. Neste sentido, o sub-campo da Economia Política Informação, da Comunicação e da Cultura (EPC), com sua relativa autonomia e o reconhecimento dos padrões técnico-estéticos como portadores de ideologias e fomentador de comportamentos é de grande relevância.

O debate passa por ressaltar uma especial atenção aos grandes conglomerados de mídia, onde os localizamos, dentro do terreno da difusão da produção de sentidos e idéias de fundo ideológico. Um exemplo clássico é a preparação do terreno no nível das idéias e fatos midiáticos que deram suporte às políticas neoliberais, base da “globalização” que atinge a América Latina a partir da década de 1990. O mediático hoje penetra em todas as esferas produzindo efeitos muito relevantes em cada uma delas. Um exemplo vivo é o golpe que se produziu a partir de uma operação de mídia em abril de 2002 na Venezuela. Ressalvo que o aprofundar nesta área, assim como da estrutura político-jurídica do modelo defendido nesta tese, será meta de futuros trabalhos.

Retomando e concluindo

Retomamos o conceito de estrutura global (como substituto e antagônico da metáfora de Superestrutura e Infra-estrutura) reforçando as definições gerais. Para compreender o que estamos retratando, as estruturas são compostas por seus elementos e suas relações, sendo que o relacional também é parte das próprias estruturas. As estruturas mais estáveis e de mudança lenta condicionam o campo das relações sociais propriamente ditas. Nestas, se formam uma totalidade onde cada esfera tem uma forma específica e diferenciada de relação. A separação para a análise está sempre sugerindo duas coisas: que pertencem a um conjunto comum e que tem suas singularidades.

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