Página inicial > documentos > Ciranda.net > Fórum Social Mundial 2009 - Belém do Pará (Brasil), 27 Jan a 1º (...) > Por que os presidentes vieram ao Fórum?

Por que os presidentes vieram ao Fórum?

sexta-feira 30 de janeiro de 2009, por Gilberto Maringoni,

Foto de Eduardo Seidl

A quinta feira, 29, foi o principal dia do Fórum Social Mundial de 2009. Em um evento tradicionalmente fragmentado, difícil de ser coberto jornalisticamente, tal a multiplicidade de debates e encontros de qualidade, a síntese foi feita pela política. Pela grande política.

Três iniciativas de envergadura marcaram o dia e tornaram o encontro de Belém um marco da agenda política internacional. O primeiro foi a assembléia realizada à tarde entre os movimentos sociais e os presidentes da Venezuela, da Bolívia, do Paraguai e do Equador. O segundo, simultâneo, marcou a presença da ministra Dilma Rousseff e de várias dirigentes políticas do Brasil e do exterior. E a apoteose aconteceu no ato para 12 mil pessoas, com a presença de Lula e um bis de Hugo Chávez, Evo Morales, Fernando Lugo e Rafael Correa. Entre os dois atos com os chefes de Estado, aconteceu uma rápida reunião fechada entre eles, uma mini cúpula latinoamericana. É algo inédito no âmbito de um encontro de movimentos sociais de todo o planeta. Até mesmo a ex-candidata à presidente da França, Ségolène Royal, marcou presença em terras amazônicas. Veio para ouvir, ressaltou.

Melhores momentos
Foi um dos melhores momentos de todas as oito edições do FSM. Lula, que participou de quatro das iniciativas em Porto Alegre e marcou presença por duas vezes em Davos, decidiu não subir aos montes suíços neste ano. Mais do que ninguém, ele sabe do possível desgaste em associar sua imagem à parte dos financistas responsáveis pela crise econômica internacional.

Chávez, por sua vez, reconhece há muito a importância do evento ao qual compareceu por três vezes. Em 2003, acossado por um locaute petroleiro de dois meses que quase o derrubou, decidiu vir ao Fórum com o objetivo de ganhar legitimidade internacional para seu enfrentamento.

O que leva chefes de executivo a abrirem espaço em suas agendas para comparecerem a um encontro dessa natureza? Certamente votos é o que não vêm buscar. Mas procuram solidificar ou recompor vínculos objetivos e simbólicos com setores da sociedade que alicerçaram suas trajetórias e, em última análise, sustentam suas administrações. O caminho não é de mão única. O encontro ganha peso e densidade política internacional com isso.

Certas divergências organizativas ficaram para trás. Não se questiona mais uma suposta autonomia entre Estado e Fórum Social, em uma clara indicação que o debate em seu interior mudou de patamar, para melhor.

Disputa
Nem tudo é tranquilo, no entanto. As duas atividades desta quinta com os chefes de Estado envolveram uma disputa, estabelecida entre o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) e o governo Lula. Descontentes com o que avaliam serem os poucos avanços da reforma agrária, os dirigentes do movimento decidiram não convidar o presidente brasileiro para a atividade do período da tarde.

Sua própria realização por pouco não fica comprometida pela absoluta falta de lugares disponíveis na capital paraense, nesses dias de grandes e pequenas plenárias. A saída foi buscar o auxílio do PSOL, que havia obtido a cessão de um ginásio universitário para uma plenária sindical. O partido abreviou suas atividades e com isso, cerca de 1,2 mil ativistas puderam participar de um encontro que expressa "um momento mágico da América Latina", segundo as palavras de Rafael Correa.

Diálogo
Em um diálogo inédito, os quatro mandatários ouviram previamente demandas de representantes dos movimentos, o que levou Morales a lembrar que "somos presidentes originários das lutas sociais continentais". O líder boliviano era o mais entusiasmado de todos. Acabara de vencer o plebiscito que aprovou por larga maioria a nova constituição do país, reduzindo o espaço institucional da oposição de direita.

Em sua intervenção, Fernando Lugo decidiu radicalizar. Afirmando desejar unificar as lutas regionais, ressaltou que isso não implica "abrir mão de nossos direitos". E emendou sua principal reivindicação: "Queremos o preço justo e a possibilidade de dispormos livremente de nossa energia. Lula não pode dizer não, pois o tratado foi firmado entre duas ditaduras".

O ex-bispo referia-se ao tratado de Itaipu, firmado em 1973 entre Brasil e Paraguai, que dá preferência ao primeiro na compra e na fixação dos preços do excedente energético paraguaio. "Queremos voltar conquistar a nossa dignidade e negociar de igual para igual. Enquanto não alcançarmos isso, nossa alma não terá paz". Mais tarde, na presença de Lula, Lugo faria um discurso mais moderado, não entrando em maiores polêmicas.

O encontro com Lula
À noite, cerca de 12 mil pessoas aglomeraram-se no Hangar, imenso salão de convenções, em atividade promovida pelo Ibase, pelo Instituto Paulo Freire e pela Central Única dos Trabalhadores. Telões ampliavam as imagens dos cinco dirigentes. As falas foram curtas e mais objetivas.

Chávez que se estendera por 53 minutos à tarde discursou por apenas 15. As ovações ao anúncio de seu nome só foram suplantadas quando Lula tomou a palavra para um discurso iniciado com uma homenagem aos mortos nas lutas pela democracia no continente. Pedindo a unidade das forças populares contra a crise, o brasileiro não buscou esconder diferenças. "É melhor ter divergências e sentar para conversar em torno de uma mesa do que fazer de conta que tudo está indo bem. Agora o jogo é o da verdade".

Eleições
João Pedro Stédile chegou a falar, no encontro com os movimentos populares, que as eleições não resolvem os problemas da região. "Se fosse assim, a Itália estaria muito bem", disse ele. Não é bem assim. Todos os mandatários latinoamericanos foram eleitos, reeleitos e referendados em seguidas consultas populares. Se a democracia real não conseguiu resolver os problemas, as soluções devem ser buscadas nas combinações de demandas sociais com o alargamento dos espaços institucionais. O próprio Fórum Social Mundial não existiria se governos democráticos não tivessem sido eleitos e investido dinheiro e estrutura em iniciativas desse tipo.

Nos tórridos dias de Belém, muitos se queixam de falhas na organização. É natural, mas tudo acaba se articulando. Davos, por sua vez, aparenta funcionar com a precisão dos outrora famosos relógios suíços. Mas a desorganização que suas diretrizes provocaram no mundo tem poucos paralelos na história recente...