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No Círio de Conceição, em Santarém

segunda-feira 29 de novembro de 2010, por Sucena Shkrada Resk,

A caminhada de Maria da Silva, seus 12 filhos e uma multidão que esbanja fé e esperança mas também vai deixando entulhos pelo caminho

O Círio de Nossa Senhora da Conceição, realizado hoje (28), em Santarém, me levou a inúmeras reflexões. Acompanhei parte da procissão, que percorreu várias ruas da cidade, sendo a maior parte na orla, onde pude observar, desde exemplos de fé à falta de educação ambiental. O exercício de apreciar grandes manifestações de massa, nos obriga a ter um olhar mais realista, que independe de religião que sigamos. E com esse pensamento libertador, me inclui no meio da multidão.

Essa experiência me possibilitou conhecer a dona de casa cearense, radicada no Pará, Maria Silva Sousa, 85 anos, que estava acompanhada por duas de seus 12 filhos. Ela caminhava com certa dificuldade em meio a centenas de pessoas, mas com um semblante feliz, que me cativou. Isso me fez abordá-la, para saber o que levava àquela manifestação, que percorre uma longa extensão. E a resposta foi surpreendente.

´É a fé. Gosto de Nossa Senhora. Já fui atendida em meus pedidos...Não sinto nenhum cansaço, nada de agonia. Estou bem, graças a Deus`, disse dona Maria, que há pelo o menos 30 anos participa da celebração. A espontaneidade expressa por ela realmente me proporcionou um bem-estar e respeito à sua devoção.

Depois desse momento, em particular, pude vislumbrar o conjunto da caminhada. Aí me deparei com um problema, que infere falta de educação ambiental. A quantidade de garrafinhas de água e de refrigerante jogadas nas ruas e calçadas por pessoas, que participavam da procissão, era realmente significativa. Em dado momento, vi uma jovem jogar, sem titubear, a garrafa que estava em suas mãos, e continuar no cortejo, como se nada tivesse acontecido.

O mais interessante é que na fala de uma representante da igreja, que se pronunciou durante o evento, uma das preocupações apontadas foi quanto ao meio ambiente. Em contra-partida, alguns cidadãos não estavam sintonizados com o papel que cabe a cada um de nós, neste sentido. Talvez, quem saiba, nas próprias igrejas ou em espaços ecumênicos, essa pauta possa ser melhor difundida.

Nesse caminhar, mais questões me surgiram, quanto à infraestrutura urbana local. Não dava para deixar de ver o esgoto escorrendo nos meios-fios e desembocando diretamente no rio Tapajós, que atualmente sofre com a estiagem. Os corpos de areia, que surgem na orla, em decorrência da diminuição do volume de água, também revelavam essa faceta de saneamento ambiental que precisa ser melhorada.

Depois dessa imersão, parti para o Parque da Cidade, para participar do penúltimo dia do V Fórum Social Pan-Amazônico. E lá, parei antes para visitar a feira de economia solidária paralela, formada principalmente por associações de ribeirinhos ou cooperativas locais. E aí, mais uma reflexão surgiu. Ao ouvir narrativas, percebi que ao mesmo tempo, que artesãs se esforçam em participar de capacitações para aprimorar seus produtos (como artefatos de palha de tucumã, entre outros), ainda enfrentam dificuldades na gestão da comercialização.

E aí parti para as tendas do fórum, em que as reivindicações dessas populações no Brasil e em outros países da Amazônia, me deixaram cada vez mais certa, que é preciso ser revisto com brevidade o conceito de desenvolvimento e qualidade de vida em nosso planeta.