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Feminismo não partido mas urgente

sexta-feira 18 de setembro de 2015, por Terezinha Vicente ,

Continuando o debate sobre feminismos e partidos, entrevistamos duas feministas sobre a polêmica em torno de se criar um partido feminista: Amelinha Teles e Luciana Genro.

Elas também partem da crise de representatividade que assola todas as instituições. “Para a maioria da população a ‘política’ é quase sinônimo de negociata de interesses privados e defesa do privilégio de poucos. As mulheres não se vêem representadas nesta estrutura política, assim como os jovens, o conjunto da classe trabalhadora e a maioria da população”, diz Luciana Genro , que foi candidata a presidência da República pelo PSol, partido onde também estão filiadas Marcia Tiburi e várias fundadoras da #partidA feminista.


“Nós feministas temos uma formação de transformar”, ensina Amelinha Teles (foto), da histórica União de Mulheres, das Promotoras Legais Populares e outras frentes, do ponto de vista do movimento feminista. “Nossa prática é de trabalhar horizontalmente, no sentido de conscientização, vou fazer porque tenho consciência da importância disso, não porque vai ter eleição amanhã, ou porque vou ter um cargo, uma candidatura”.
Amelinha Teles não é filiada a partido algum, mas era comunista do PC do B na época da ditadura. Feminista histórica, presa e torturada, foi expulsa daquele partido por defender o feminismo.

E isso nem foi há tanto tempo assim, mas a luta desses quarenta anos mudou bastante o quadro, como percebe Amelinha. “As mulheres buscam espaço para atuar e o feminismo cresce, o que tem de coletivo feminista atualmente! Hoje, as mulheres são mais autônomas, questionam seu papel na sociedade e a forma como continuam sendo tratadas, discriminadas. Isso incomoda a juventude, as meninas buscam espaços onde possam se fortalecer e lutar pela sua liberdade. E o feminismo organizado não tem dado conta de abrir as portas para todas as mulheres interessadas. Como uma feminista que começa a se dar conta disso chega no movimento? Precisa de um espaço para se fortalecer e a #partidA fez esse chamado”.

Luciana Genro, do PSol, reforça a análise de Amelinha. “Recebi, durante a campanha presidencial de 2014, o apoio de muitas e muitas mulheres que viam em minha candidatura uma ferramenta para vocalizar sua luta por mais respeito e mais direitos. Muitas mulheres, que se viam silenciadas e sozinhas, e foi em meio a este processo que descobrimos a atualidade e a urgência do feminismo. A lógica da sociedade capitalista e patriarcal cria enormes barreiras para a participação da mulher na política”. Ela também considera o surgimento de um partido feminista “parte deste fenômeno, que por um lado nega as velhas estruturas e ao mesmo tempo tenta fortalecer a luta das mulheres no Brasil. A #partidA é parte da negação deste regime envelhecido e parte da tentativa de encontrar alternativas a ele. Por isso, tem uma grande importância”.

Por outro lado, diz Luciana (foto), “o fato de ser construído por mulheres não garante que não reproduza a verticalização, a competição entre seus membros e que seja anti-democrática. E também não é segurança alguma de que esta organização seja, de fato, feminista. É imprescindível a existência de um partido que tenha plena consciência da necessidade do feminismo e que se assuma como tal. Um partido pode ser feminista se - mesmo sendo composto também por homens - as mulheres têm voz, suas necessidades são consideradas prioridades; se as mulheres tem iguais condições para ocupar os cargos de direção, de formulação e visibilidade pública, entre outras questões”.

Já Amelinha diz que a ideia de um partido feminista nunca a atraiu. “Eu tenho formação marxista, vinculada à luta de classes, o partido deve defender uma classe, homens e mulheres, ter posição política, ser anticapitalista, anti-racista, anti-sexista. Isso quando eu acreditava em partido. Depois, percebi que o sistema político impõe um formato de partido e ninguém sai daquele formato, até porque é mais cômodo, mais confortável. É uma lógica inteiramente patriarcal , uma lógica hierárquica muito rígida, só se defendem interesses imediatos. Não se pensa em processos de médio prazo, de educação, de transformação real da sociedade, os partidos só pensam na próxima eleição”.

Ela, que já foi convidada muitas vezes para ser candidata, aposta é no movimento feminista e vê uma grande contradição na #partidA. “Por juntar muita gente que não militou em espaços feministas, muitas agem como se o feminismo estivesse começando agora. O feminismo tem um acúmulo aqui no Brasil, quarenta anos só a segunda onda. Muitas mulheres ali pensam de modo feminista, mas não conhecem o que as feministas já fizeram e estão fazendo. Ao mesmo tempo que abre espaço, é um espaço que não tem história e o feminismo tem, é uma contradição”.

Luciana Genro, única candidata à presidência da República a defender publicamente a pauta feminista, segue debatendo como uma feminista. “Ou as organizações políticas que se pretendem revolucionárias levam em conta a extrema urgência da luta das mulheres, ou estarão fadadas ao fracasso. Como seria possível extirpar a desigualdade de classe sem extirpar a desigualdade de gênero? Como seria possível constituir um regime político onde o povo governe, porém as mulheres (parcela majoritária da população mundial) não têm vez? Como é possível defender que os trabalhadores sejam protagonistas destas transformações, se as trabalhadoras são impedidas de participar da política pela violência doméstica, pela falta de voz nas organizações, etc?”.

(Publicada originalmente no jornal Brasil de Fato)