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Brasil mostra sua cara: racismo no espaço do fórum

sexta-feira 22 de janeiro de 2016, por Soraya Misleh,

Em diálogo com um convidado estrangeiro no Fórum Social Temático em Porto Alegre (RS), ele revela a visão sobre o Brasil: o paraíso da democracia racial. Um mito desmontado pela ação da polícia – para além de relatos de quem enfrenta o racismo cotidianamente - durante a atividade que lembra os 15 anos do Fórum Social Mundial e é preparatória à próxima edição, que ocorrerá entre 9 e 14 de agosto em Montreal, no Canadá.
Antes de ter início a conferência “Comunicação, juventude e direitos humanos”, em 21 de janeiro, em tenda no Parque da Redenção, um dos palestrantes foi abordado de modo intimidatório pela polícia militar do Rio Grande do Sul, por atividade suspeita. Conhecido como PC, Paulo Cesar Medeiros Barbosa, da Rede Mocambos, estava cruzando a via para ir à tenda. Como ficou demonstrado, um negro atravessando a rua, para a repressão, é suspeito. A PM montada pediu documento e exigiu que PC colocasse as mãos na cabeça, empurrando-o para um canto com o cavalo. Apresentando a identidade, ele contestou a ação, recusando-se a levantar os braços: “não sou bandido, sou suspeito por quê?” Sentiu-se, como desabafou, como nos tempos da escravidão, ao ser abordado por um agente da repressão também negro, como se estivesse diante de um “capitão do mato”. Mais policiais, carros e motos, para reforçar a repressão que pretendia levá-lo à delegacia, ao que foi impedida pela multidão de ativistas que se aglomerara em volta para protestar. “Racismo, racismo!” “Libera, libera!” “Não acabou, tem que acabar! Eu quero o fim da polícia militar!”, bradavam. Se estivesse só, PC certamente teria a mesma sorte de milhares de negros Brasil afora que enfrentam violência policial dia a dia.

Da vivência, os relatos

Organizada como parte dos debates rumo ao 5 Fórum Mundial de Mídia Livre, que terá lugar em Montreal, a conferência ‘’Comunicação, juventude e direitos humanos’’ foi inflamada por mais essa página infeliz de uma história que não acabou. Muito aplaudido ao entrar na tenda, acompanhado de ativistas que acompanharam a ação policial, PC fez uma fala emocionada: “’São 50 mil jovens assassinados no Brasil por ano. É um extermínio. Está na hora de acabar com isso, de sermos suspeitos por estarmos parados, por estarmos atravessando a rua... Essa democracia não nos serve e quero mudar isso. Conto com vocês.” Confira o Mapa da violência 2015. O palestrante enfatizou: “Sofro racismo a cada minuto, da hora que acordo à hora que durmo. A comunicação organizada pela juventude, via redes sociais, é importante para nos ajudar a transformar essa situação.”
O rapper Eduardo Taddeo complementou: “Direitos humanos na periferia não existem, são apenas um direito frio estampado no papel. Valem somente para um tipo de pele e condição social. A cada meia hora morre um jovem no Brasil e, na periferia, somos ensinados a não contestar. O sistema quer que esse jovem não participe da vida política, esteja drogado. É a criminalização da pobreza, a legitimação e naturalização do genocídio.” Para ele, enquanto não houver igualdade de fato, essa guerra vai continuar. “Não há mundo pacífico se houver pessoas passando fome do outro lado. Estamos fora da política, não somos representados, há um processo de anulação e silenciamento da população da periferia. Está na hora de pararmos de aceitar isso. Não há mudança fora da política.” Representando a campanha Libertem Islam Hamed e a Ciranda Internacional de Comunicação Compartilhada, a palestino-brasileira Aline Baker concluiu: “O treinamento da polícia e as armas que matam nas periferias vêm de Israel, após testá-los sobre os palestinos. O inimigo é um só.”

Colaborou Rafael Bantu