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Ariel Sharon, o carrasco

terça-feira 14 de janeiro de 2014, por Soraya Misleh,

Um dos grandes carrascos do povo palestino e responsáveis por crimes contra a humanidade, Ariel Sharon faleceu em 11 de janeiro aos 85 anos, após permanecer por oito anos em coma. Sua morte foi seguida por homenagens de lideranças sionistas, como o presidente de Israel, Shimon Peres. Conforme noticiado no Jornal Nacional, ele afirmou que Sharon foi um líder único, responsável por vitórias e por alimentar a esperança do povo israelense. Sem fugir à regra na grande mídia, a TV Globo, em seu telejornal líder de audiência entre os programas do gênero, apresentou Sharon como controverso, polêmico. Qualificativos que são um engodo, a encobrir os verdadeiros adjetivos que caberiam ao homem que foi apelidado “Açougueiro de Beirute” pela responsabilidade sobre os massacres nos campos de refugiados palestinos no Líbano, Sabra e Shatila, e cujos crimes contra a humanidade são inúmeros.

Sharon não foi polêmico. Ele foi a personificação do projeto sionista, de limpeza étnica do povo palestino para a criação em suas terras de um estado homogêneo, exclusivamente judeu. Por isso é homenageado pelas lideranças israelenses. Filho de imigrantes da Bielorrussia, nasceu em 1928 na Palestina sob o mandato britânico, que perdurou até a criação do Estado de Israel, em 15 de maio de 1948 – data lembrada na memória coletiva árabe em geral como nakba, catástrofe, já que resultou na expulsão de 800 mil palestinos de suas terras e propriedades e destruição de cerca de 500 aldeias. Sharon, cujo sobrenome original era Sheinerman, ingressou no grupo paramilitar sionista Haganah aos 14 anos. À frente da Brigada Alexandroni, cujos massacres de palestinos são comprovados em documentos oficiais pesquisados por estudiosos árabes e pela nova historiografia israelense, comandou a denominada Unidade 101, a quem são atribuídas atrocidades exemplares. A ela coube a liderança da Operação Shoshana, que promoveu a limpeza étnica na aldeia palestina de Qibya, a 30km a noroeste de Ramallah, Cisjordânia, em outubro de 1953. Naquele ano, havia pouco menos de 1.500 habitantes no vilarejo, que foi inteiramente destruído. O saldo foi de 77 assassinados, incluindo mulheres e crianças. Em matéria publicada na Euronews sobre a morte do carrasco e a reação dos habitantes da região, um dos sobreviventes, Hamed Ghetan, revela o sentimento do oprimido: “este é o fim inevitável de todo e qualquer tirano”. A Unidade 101 foi desfeita devido à visibilidade desse massacre, mas Sharon jamais foi julgado por esse e outros crimes. A aldeia ainda exibe as marcas da destruição e os nomes dos assassinados.

A carreira do “açougueiro de Beirute”, assentada no sangue palestino, ganhou novo capítulo durante o ataque ao Sinai egípcio na ocupação militar dessa área, de Golã síria e dos territórios palestinos em 1967 e o cerco ao exército daquele país árabe que levou à vitória israelense na Guerra do Yom Kippur em 1973. Pelos “serviços prestados” para consolidar a colonização sionista, os israelenses passaram a chamá-lo “O Rei de Israel” e “O Leão de Deus”. Os diversos cargos políticos junto ao governo ao longo de sua carreira indicaram sua coerência com um projeto fundado na limpeza étnica do povo palestino.

Sabra e Shatila

Uma das mais conhecidas de suas atrocidades foi a licença dada a falangistas libaneses para os massacres de Sabra e Chatila, entre 16 e 18 de setembro de 1982. Naquele ano, Israel invadiu o Líbano para tentar se livrar da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), que organizava a resistência palestina à época, e ocupar o país. O massacre de Sabra e Shatila foi arquitetado por Sharon, então ministro da Defesa de Israel, em reunião no dia 15 de setembro com líderes da milícia falangista cristã ligada ao governo do presidente do Líbano, Bashir Gemayel, assassinado um dia antes do encontro. A jornalista Samia Gabriela Teixeira, em artigo de sua autoria, revela: “O historiador árabe Fawwaz Traboulsi descreve em seu livro História Moderna do Líbano os interesses firmados antes da morte do presidente Bashir, que planejava colocar em prática uma ‘solução radical’ para equilibrar demograficamente o Líbano, ‘provocando um exôdo geral da população palestina’ que, segundo ele, constituía ‘um povo em excesso’ na região. Junto à responsabilidade destinada a Ariel Sharon e ao governo cristão libanês, o estado norte-americano também teve a sua participação ao retirar todas as suas forças de paz, responsáveis pela supervisão da saída da OLP, e ao evadir os destacamentos militares da região e pressionando, indiretamente, a retirada de forças francesas e italianas do local. (...) Os massacres deixaram cerca de 4 mil pessoas, entre mulheres, crianças e idosos, mortas. Muitas delas, decapitadas, mutiladas ou desfiguradas.” A jornalista cita ainda a aliança com a Síria.

Diante de manifestações gigantescas em todo o mundo, inclusive no Brasil, os ataques a Sabra e Chatila foram considerados grave violação no Tribunal Penal Internacional. Sharon foi acusado formalmente por comissão israelense, mas não foi preso ou afastado do governo. Renunciou ao cargo de ministro da Defesa, porém nunca foi julgado.
Pelo contrário, retornou à política como um grande arquiteto da colonização nos territórios palestinos ocupados militarmente em 1967. Entre suas peripécias, está a provocação aos palestinos ao entrar na Esplanada das Mesquitas em Jerusalém, em setembro de 2000, o que foi considerado por muitos analistas o estopim para a segunda intifada. Em 2001, durante o levante, foi eleito primeiro-ministro de Israel, com o discurso de “homem forte” que garantiria a segurança de seus eleitores – aprisionados pela “cultura do medo” alimentada pelos sionistas. Consta em seu currículo macabro o início da construção do muro do apartheid, sob esse pretexto, o qual na realidade anexa mais terras, separa famílias palestinas e as impede de ir e vir. Um passo a mais rumo à consolidação do regime de apartheid a que está submetida a população que vive sob ocupação.

Outro passo foi dado quando Sharon decidiu desmontar os assentamentos ilegais israelenses em Gaza em 2005. Sob a mentira de que seria uma flexibilização na postura “linha dura” do “açougueiro”, essa ação foi exibida pelos meios de comunicação tradicionais como uma sinalização de boa vontade para a paz. Eram 8 mil colonos, ante os mais de meio milhão na Cisjordânia hoje, e os gastos militares de Israel não compensavam sua manutenção. Na verdade, a retirada dos colonos concretizou a instituição de Gaza como o maior campo de concentração a céu aberto da atualidade. São constantes os ataques israelenses na região habitada por 1,5 milhão de pessoas, que convivem com um bloqueio desumano desde 2007.

Com o currículo vasto de “serviços prestados” ao Estado de Israel, não há o que se surpreender com as homenagens de lideranças sionistas e globais ao “açougueiro de Beirute”. Cabe às pessoas de consciência desmontar a farsa sobre quem foi Sharon. E mais do que lamentar a omissão na prática diante dos crimes contra a humanidade por ele cometidos, denunciar que infelizmente ele não está sozinho. O projeto de limpeza étnica continua a ser posto em execução ainda hoje. A pressão internacional é decisiva para que a Palestina seja livre e seus carrascos sejam julgados e condenados internacionalmente. Para que não mais a imagem transmitida pela mídia reflita as homenagens a um carniceiro. No Brasil, um caminho é fortalecer a campanha por boicotes ao apartheid israelense e exigir do governo que rompa imediatamente os acordos militares com a potência ocupante. É ainda se somar às fileiras dos que batalham pela democratização das comunicações. Que essa afronta sirva de fermento às lutas justas pela transformação da realidade.