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A Primeira crônica do ano

sexta-feira 3 de janeiro de 2014, por Terezinha Vicente ,

Tive o prazer de viver a virada para 2014 numa das regiões de que mais gosto – e freqüento – em São Paulo: Av. Paulista, entre a Augusta e o Parque Trianon, a Frei Caneca e a Consolação. Diversidade ameaçada pela maioria alienada.

Não deu para ver a queima de fogos na Paulista devido o lado contrário do apartamento, mas deu para ouvir, ver os reflexos no ar e no chão do maior evento público de “reveillon” de São Paulo, acho que a maior multidão reunida no país. Mais de dois milhões de pessoas estiveram na festa da Avenida Paulista – isso sem contar as milhares que estavam nas ruas próximas, olhando extasiadas para o céu por 13 minutos, embora o repórter da globo tenha dito ao vivo que a queima de fogos foi de menos de 5 minutos (será que ele quis dizer 15, tempo previsto para o espetáculo do Rio de Janeiro?)...

Foi bom ver o vazio da Paulista na manhã do primeiro dia de 2014, depois de todo o barulho que se escutava até o meio da madrugada. Agora, restam os trabalhadores que carregam o lixo, que desmontam a festa. O barulho era ao vivo, imagens pela televisão de um dos shows da virada mais bregas e horríveis de todas as capitais do Brasil. Soube hoje que na Bahia, uniram-se governador do PT e prefeito do DEM, com o comando dos espetáculos musicais de lá, gastando milhões para fazerem do “réveillon” daquele estado o segundo melhor do Brasil. Será que o circo sempre foi assim tão caro?
Aqui em SP, como o espetáculo é principalmente para a tal nova classe mérdia, a dona é a indústria cultural mesmo, capitaneada pela Globo que colocou na virada seus novos “The Voice”. Por que sempre na virada de ano, nesta metrópole a mais diversa culturalmente, temos artistas de tão baixa qualidade musical no evento patrocinado pela Prefeitura?


Esta diversidade global que encontramos nas pessoas em Sampa – particularmente nessa região da cidade, onde eu fui caminhar de manhã – já estava de novo presente na rua... na avenida, nos bares abertos, dormindo nas calçadas, ou no Parque Trianon. Os recados das ruas, da galera organizada nos movimentos sociais, estavam por todo lado; as vozes que os donos do poder e da mídia não querem escutar. Vozes que, ao serem ampliadas como o foram no ano que acabou, receberam críticas de radicalismo inútil, ou falta de oportunidade histórica, o momento agora é de aliança de classes para alcançar mínimos direitos humanos e garantir as conquistas democráticas!!! Quais conquistas democráticas? As da financeirização da economia? da militarização da sociedade? da judicialização da República?

Ser dona (e dono) do próprio corpo – direito humano que deveria ser o primeiro, básico – nem pensar... É questão que impede e compromete o tal arco de alianças que ultrapassa ideologias e garante a governabilidade do capital.

Muita gente ainda com a roupa da virada, retornando das comemorações, e muita gente dormindo na rua. (Tive que dar minhas notas menores para um morador de rua, que assim se apresentou, com um “layout” denunciando um antigo ripongo, dizendo que já foi da USP... ). A convivência sem estranheza – o que dirá indignação?! – dos passantes do “réveillon” com tamanha desigualdade e desumanidade, é para mim chocante... Convivência naturalizada por valores que nos tornam, a cada dia, menos pensantes, menos sábios, menos humanos. É triste ver a maioria a comemorar seguindo a propaganda da mídia, consumindo, se empanturrando, enchendo a casa de luzinhas coloridas fabricadas na China para atender a dominante cultura norte-americana.


E as ruas? O principal cartão postal paulistano – reproduzido à exaustão pelos celulares e pelas redes sociais – exibe, uma vez mais, decorações natalinas estranhas ao nosso povo, clima, fauna e flora... parecem refugos de decorações exibidas nos países do norte do planeta. Que horror! Até réplica de estátua da “Liberdade” americana encontrei.
A maioria do povo desta metrópole, e a maioria dos seus visitantes de fora, acham lindas as decorações de Natal oferecidas pelos poderes público e privado – bancos em destaque -, dando mostras do nível de dominação cultural a que está submetido o nosso povo, com a cumplicidade dos seus governantes.

A diversidade é linda de ver na cidade de São Paulo e, nisso, o Parque Trianon é exemplar. Mulheres e homens sós, familias de vários tamanhos e tipos, heteroafetivas, homoafetivas, de mulheres com seus filhos, de pessoas e casais com seus cachorros, de jovens e maduros, de moradores de rua aos “garotos de frete do Trianon” e os moradores da classe A dos diversos edifícios da região. Será que as pessoas incorporam o necessário respeito a essa diversidade? Será que as pessoas celebram como eu essa pluralidade do ser?
Será que as pessoas refletem sobre os recados dados pela natureza, como o calor demasiadamente excessivo que estamos vivendo nestes dias nesta terra que já foi “da garoa”? refletem sobre os recados dados por outras pessoas que se preocupam mais e militam em defesa do meio ambiente?

Gostei de estar no primeiro dia deste ano de 2014 nesta região de São Paulo. Apesar de dominada por edifícios e edifícios de várias idades e épocas, resistem ainda duas ou três casas coloniais ocupadas por setores públicos. Ainda bem que aqui tem também o MASP, cuja arquitetura permite existir o maior vão livre da América Latina... E, se é livre, o queremos livre! Tomara que os dias deste ano possam ser assim, com menos barulho e poluição, com menos carros e muita gente na rua... Com mais recados das ruas sendo ouvidos. Será bom se o sorriso e esse tom de “feliz ano novo” puderem sair da gente e grudar no mantra global que vamos tecendo o tempo todo - olhos nos olhos de cada pessoa que cruzar nosso caminho, celebração e respeito, o tom de cada uma é singular. Pela liberdade de cada ser ser o que quiser ser!